Um circuito sensorial cheio de aventura para todas as crianças


Quando falamos de inclusão, estamos supondo que há alguém que não faz parte do grupo. E nossa experiência como adultos nos indica quase automaticamente que uma criança com deficiência será excluída do grupo. É. Pode acontecer. Mas quando deixamos a exclusão como premissa, tendemos a raciocinar valorizando a deficiência e limitando a criança a ser apenas alguém com uma deficiência. E a realidade é bem outra.

Me explico. Quem já viu minha foto (aqui é a Patcamargo escrevendo), pode dizer que sou “japinha”. Ou se me apontarem na multidão, podem dizer “é aquela baixinha ali”. Agora quem convive comigo, pode dizer que a Patcamargo é faladeira; é brava; é engraçadinha. Olha aí, eu japinha e baixinha.

 

Todas estas características sobre mim estão corretas. Acontece que eu não sou só UMA destas coisas. Sou todas estas juntas e muitas outras caraterísticas além destas. Da mesma forma, alguém com deficiência está longe de ser só isso.

Ainda no meu exemplo, eu não me recordo em nenhum momento da minha vida ter alguém facilitando minha convivência na hora de brincar com outras crianças porque sou mais baixa que a média. Não havia mãe, avó, professor da escola, irmão ou coleguinha que chegasse e dissesse: “olha, gente, vamos combinar de jogar a bola mais baixo porque a Patricia vai brincar e ela é baixinha”. Ninguém também baixou a cesta de basquete para mim na aula de educação física (que lástima!kkkk). O que acontecia, é que na hora que qualquer brincadeira começava, automaticamente ou eu ou quem estava comigo íamos adaptando o jogo para que a minha “baixeza” fosse compensada. Em resumo, procure deixar que a brincadeira seja moldada pelas crianças com deficiência e sem deficiência durante o trajeto e não previamente.

Este longo início foi para contar que a brincadeira de hoje tem muito a ver com inclusão porque ela possibilita incluir vários sentidos que normalmente não percebemos: o circuito sensorial.

Minha primeira motivação para este circuito foi a foto que fiz quando visitei o Laramara, uma instituição que faz um trabalho com crianças com deficiência visual e suas famílias, mostrando como ter autonomia e estar integrado nas atividades sociais. O caminho construído por eles tem detalhes interessantes que eu quero destacar e que vão servir de inspiração para você elaborar um circuito sensorial na sua casa, no parque, usando os recursos disponíveis.

Circuito inclusivo - caminho lamara

 

Reproduzir em casa

Olhando a foto do circuito, ela é um caminho que se inicia na parte azul, que é um chão lisinho. Em seguida vem um trecho com areia, uma escada, a ponte que é ligeiramente instável e de madeira, a escada e o chão de pedrinhas. Só aí já é possível brincar de exploração descalços experimentando com os pés vários tipos de pisos diferentes. Além disso, as mudanças do terreno (piso instável, escada) são excelentes para trabalhar coordenação, noção espacial e equilíbrio.

Observando ainda o circuito, as paredes também têm texturas diferentes, seja o granulado da pintura, as varas de bambus pregadas ou a parte com pedras. Cada uma destas etapas desperta um sentido novo nas crianças.

E como brincar? Propondo que as crianças explorem o espaço com os pés descalços, com as mãos. Em uma vez andando bem devagar; outras vezes mais rápido. De olhos vendados, tentando adivinhar em que parte do circuito estão. E até só tentando produzir barulhos diferentes em cada etapa do caminho. Tenho certeza que será um momento de diversão e exploração incrível. Mas a minha dica é antes de propor qualquer coisa, simplesmente deixar as crianças testarem o circuito sozinhas.

E como fazer um destes em casa? A proposta é aproveitar o que há na sua casa ou, por exemplo, usar os recursos de um parque ou uma praça. Você pode criar um chão diferente usando pedaços de tecidos, tapetes com tramas diferentes (de linha, de sizal, de plásico). Aproveitar folhas secas, papel amassado para diferenciar o chão.

Outra alternativa é andar descalço na grama ou na areia da praia.

Prenda cordas na parede. Aproveite paredes com textura, mais rústicas, mais lisas ou com revestimento de azulejo. Deixe que as crianças toquem em árvores e plantas de olhos fechados.

Um passeio sensorial para estimular o tato do seu bebê - julia pisando na grama

Aproveite escadas, rampas e degraus que possam existir num caminho em volta do quarteirão.

Quando o passeio na rua vira uma grande brincadeira - gabi com o papai

Ou seja, dentro ou fora de casa é possível montar um circuito sensorial cheio de aventuras para todas as crianças brincarem juntas. Que tal?

Se você quer saber um pouco mais sobre a relação da inclusão e as brincadeiras, eu recomendo a leitura dos seguintes posts aqui do Tempojunto:

Entrevista com Meire Cavalcante sobre o brincar e a inclusão (amo esta entrevista!)

Como aproveitar a brincadeira como meio de inclusão – dicas de várias brincadeiras

Brincadeira que estimula o tato

15 brincadeiras para quando as crianças estiverem doentes ou hospitalizadas

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