Importância do Brincar: sem culpa se você não brinca. Entrevista com Tania Zagury


Quando estava grávida do Pocoyo (oi, aqui é a Patcamargo, em mais uma entrevista) eu e meu marido fizemos a lição de casa direitinho: buscamos várias referências de filosofias de educação, autores e lemos vários livros sobre o desenvolvimento da criança. Em geral, sempre puxando mais para as áreas de desenvolvimento cognitivo, social e emocional. E, claro, depois de muitos textos comecei a separar o que na minha opinião era joio e o que seria trigo.

Um destes trigos que faço questão de ler e reler são as obras de Tânia Zagury. Membro da Academia Carioca de Letras, Professora Adjunta da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Filósofa, Escritora e Pesquisadora em Educação, com 25 livros publicados no Brasil e no exterior. Ela é dona de um extenso currículo de atividades sempre relacionadas à educação das novas gerações, tanto do ponto de vista da família, quanto da escola.

Entrevista especial com Tania Zagury- FOTO TANIA

 

Em casa, eu fiz uma trilogia com os livros da autora que mais me chamaram a atenção. E são estes que ficam ao meu alcance o tempo todo: Educar sem culpa, a gênese da ética; Limites sem trauma, construindo cidadãos e Os Direitos dos Pais: Construindo cidadãos em tempos de crise. Seu livro mais recente, Filhos Adultos Mimados, Pais Neglicenciados, já está na minha lista de leitura.

Na entrevista que tive o prazer de fazer com ela, falamos da brincadeira e sua importância para a criança. Mas falamos mais ainda da não necessidade de culpa por parte dos pais que não gostam de brincar com os filhos. “Há outros meios”, ela afirma. Se você se identifica, então, este papo é um prato cheio. Caso contrário, vale escutar os argumentos sobre o brincar.

“Pessoalmente, eu considero que tudo que aprendemos brincando, aprendemos mais rapidamente e melhor, com mais motivação”, afirma Tânia, quando eu pergunto sobre como a brincadeira pode ajudar os pais. “É possível transmitirmos com mais facilidade os valores da família de forma lúdica, por exemplo”, completa. Ouça a opinião da educadora.

E daí já vem na nossa cabeça aquela culpa por não ter brincado com as crianças hoje. Ou ter criado uma desculpa para seu filho brincar sozinho, quando ele queria que você participasse. Mas não precisa tanta culpa (ufa!). Porque fazer algo sem vontade pode ser mais prejudicial para a criança do que não fazer.”Quando um pai faz algo verdadeiro, até um bebê percebe. Evidentemente, se os pais brincam porque leram em algum lugar que é importante para o desenvolvimento, mas não fazem com uma vontade legítima, isto também será percebido pela criança”, afirma a especialista. Ouça o que a professora Tânia tem a dizer sobre este assunto.

“Quando você faz algo com prazer verdadeiro com seus filhos, esse momento se transforma em puro afeto com os filhos. A criança sabe perfeitamente diferenciar um adulto feliz de outro que está estressado ou com má vontade… Quando o brincar é verdadeiro, o adulto se diverte e as crianças se sentem amadas – o que reforça a segurança e a autoestima dos nossos filhos”, reforça.

Outras formas de se aproximar das crianças além do brincar

Ao mesmo tempo, a professora Tânia afirma que brincar no sentido literal da palavra não define um bom pai ou uma boa mãe. “Há pessoas que se sentem desconfortáveis brincando. E isso é perfeitamente normal”, explica. Ela esclarece melhor neste trecho da entrevista.

Mas o que é possível fazer, então, no lugar da brincadeira para promover um vínculo afetivo com o filho, já que a brincadeira é um fator relevante nesta equação? A primeira coisa é saber que você não precisa ficar brincando com seu filho o tempo todo, mesmo que goste de brincar. A brincadeira é tão importante para a criança que ela precisa existir mesmo que os pais não consigam brincar. Mas os pais precisam providenciar materiais, local e tempo para a criança brincar. Temos que explicar e fazer as crianças entenderem que a rotina e preferência dos adultos também precisa ser respeitada.

 

Entrevista especial com Tania Zagury- FOTO TANIA 2

“O que pesa mais na balança é o dia a dia com a criança. Então, se durante a semana houve oportunidade de estar em três ou quatro momentos com seu filho, em atividades em que não houve estresse ou ansiedade e a atitude dos pais foi verdadeira, com vocês conectados e juntos, pode-se perfeitamente ser sincero e dizer à criança que não pode ou não quer brincar naquele dia”, esclarece a filósofa. Caso contrário, se o adulto se sentir na obrigação de brincar, mas, ao fazê-lo, fica pensando em outras coisas que precisa fazer ou irritado porque está fazendo algo de que não gosta, torna-se um momento estressante, que pode ser bem menos positivo do que simplesmente não brincar. Sem saber porque o pai está chateado ou impaciente, a criança pode supor que seja porque, por exemplo, porque o pai não gosta dela, o que provavelmente a ornará mais e mais exigente da presença constante dos pais”, conclui.

A especialista dá algumas sugestões para lidar com as necessidades da criança e do adulto na prática. A primeira delas, é separar meia hora de dedicação por dia ao menos. Ouça neste trecho, como Tânia descreve bem a nossa rotina de trabalho dentro e fora de casa (tanto para homens, quanto para mulheres) e inclui sua sugestão.

E quando temos um trabalho inadiável para fazer em casa. Ouça a sugestão da Tânia.

Por falar em trabalhar com a criança do lado, aqui no blog há várias de brincadeiras que foram justamente pensadas para estes momentos em que temos que trabalhar com os filhos do nosso lado.

Brincadeira como prêmio por bom comportamento

Há momentos em que a brincadeira se torna prejudicial? Com certeza. “Brincar é importante para a criança, mas isso não quer dizer que os pais precisam ser crianças o tempo todo também”, explica a professora. “Às vezes os pais gostam tanto de brincar que acabam se colocando no mesmo nível hierárquico da criança na família. Quando os pais só brincam, rolam, parecendo tão criança quanto o filho, pode haver dificuldade de a criança entender, mais adiante, que aquele mesmo adulto é uma autoridade que deve ser respeitada e obedecida”, conta

E como deixar claro que há a hora da brincadeira, mas há momentos em que é o adulto precisa ser adulto e os limites de respeito e cuidado com o outro precisam existir? Ouça

Quando o assunto é educar as crianças, muitos pais lançam mão do recurso de premiar o filho por um bom comportamento. Mas no caso da brincadeira, a filósofa alerta que ela não deve ser usada como “moeda de troca” para a criança cumprir uma tarefa ou se comportar como esperado. “Seria uma comercialização da brincadeira, que eu não acho interessante. Se esta compensação se tornar cotidiana, transforma-se num condicionamento, ou seja, a brincadeira só acontece em função de algo que a criança fez antes”, explica.

Por conta de seus livros e palestras, a professora Tânia está em contato frequente com pais. Por isso, perguntei a ela se os pais têm tido mais consciência da importância da brincadeira para as crianças. A resposta da especialista aponta também para a agenda cheia das crianças, a preocupação dos pais em preparar os filhos para o futuro e a relação com a escola.

“É fundamental que a criança tenha tempo quando chega em casa, no dia a dia, para brincar livremente, para fazer o estiver com vontade realmente. E este momento tem ficado cada vez mais curto”, alerta a especialista. #ficaadica “Tudo o que se faz com os filhos, nos primeiros sete anos de vida, fica gravado em sua memória afetiva pelo resto da vida. É um processo que começa na gravidez e vai até a idade adulta e que pode se refletir de forma positiva ou negativa”, explica a especialista.

Para encerrar, a professora Tânia responde a nossa frase Brincar é…: “Brincar é tudo de bom, sejamos crianças ou adultos. Não há nada mais gostoso que conviver com pessoas que riem, são alegres e sabem levar a vida dentro de uma ótica positiva. Se sabemos rir com a vida, demonstramos ter aprendido o essencial”. Amei.

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