A dama da literatura brasileira infantil e seus livros brincantes


Eu (aqui é a Patcamargo) sempre fui uma leitora voraz e uma fã dos mais diversos autores brasileiros. E tem aqueles, cujos livros encantam tanto que eu sonhava em escrever para eles e contar o quanto as histórias mudavam minha vida. Mas na minha época de criança não era exatamente simples encontrar o endereço destes autores e eu acabava escrevendo só na minha imaginação.

Daí eu cresci e o respeito por estes autores me fizeram ter um certo receio de simplesmente mandar um e-mail dizendo “oi, sou seu fã”. A profissão de jornalista foi quem me deu a chance de finalmente conhecer e conversar com estas pessoas tão queridas da minha infância. Muitos deles estão aqui nos posts do Tempojunto, com muito orgulho. Mas eu quase caí de costas quando recebi um “sim” da Ana Maria Machado (!!!!) para uma entrevista. Sabe quando você resolve arriscar, pega um e-mail que você garimpou, pede a entrevista e não espera uma resposta de alguém que é um ícone da literatura brasileira infantil. Daí a resposta vem? Foi assim.

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E a entrevista foi uma delícia. Considerada pela crítica como uma das mais versáteis e completas das escritoras brasileiras contemporâneas, a carioca Ana Maria Machado ocupa a cadeira número 1 da Academia Brasileira de Letras, que presidiu de 2011 a 2013. Na sua carreira, os números são generosos. São mais de 40 anos escrevendo, mais de cem livros publicados (dos quais 9 romances e 8 de ensaios), mais de vinte milhões de exemplares vendidos, publicados em vinte idiomas e 26 países.

O que a levou a escrever para crianças?

Eu já escrevia para adultos e sabia que “tinha jeito” para escrever. Conhecia muito bem a língua (era professora de português), estava começando a trabalhar numa tese de doutorado sobre Guimarães Rosa. Quer dizer, língua e literatura eram meu elemento. Por que não para crianças também? Não vi nenhum motivo para excluí-las de minha preocupação estética com o uso da linguagem, terreno onde sempre me movi. Então somei, ampliei, e incluí a criança nessas minhas vivências da arte da palavra.

É possível relacionar a literatura e a brincadeira?

Acho que sim, o tempo todo. As brincadeiras transformam em diversão tudo o que vivemos – inclusive os livros que lemos. E vice-versa, os livros também são capazes de incorporar as brincadeiras de todo dia.

Livros podem ser brincantes?

Não só podem, mas devem.

Tem algum livro seu que você considera mais brincante?

Como objeto em si, acho que “Um Avião e uma Viola” brinca muito com as palavras da língua, por exemplo. Também “Palavras, palavrinhas, palavrões”. Mas outros transformam brinquedos e brincadeiras em personagens , como se faz com o Boi de Mamão em “Bem do seu Tamanho” ou com o Boi em “O Menino Pedro e seu Boi Voador”. Outros livros, ainda, partem direto de brincadeiras e as incorporam à narrativa – como “Bento que Bento É o Frade” ou “Era uma Vez um Tirano”.

É mais complexo escrever para crianças?

Sem dúvida, porque não é fácil ser complexo e simples ao mesmo tempo. Eu lembro que um dos mais difíceis, entre os infantis, foi “Um Avião e uma Viola”, que só tem uma linha por página. Os primeiros da série Mico Maneco também foram muito difíceis, por trabalharem com um repertório de sílabas muito limitado.

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Desde que lemos Menina Bonita do Laço de Fita, minha filha do meio se identificou muito com a menina. Os livros provocam esta identificação nas crianças?

Provocam, sim. Uma boa narrativa, em qualquer idade, provoca movimentos de identificação e de projeção do leitor com algum personagem.

Tem assunto que não se escreve em livros para crianças?

Não sei. Normalmente eu acharia que desespero e suicídio não deveriam ser tema de livro para criança. Mas Lygia Bojunga escreveu uma obra prima, “Meu Amigo Pintor”, sobre suicídio. E eu vi que é possível. Mas acho que eu não seria capaz.

Ana Maria Machado é casada com o músico Lourenço Baeta, do quarteto Boca Livre, tendo o casal uma filha. Do casamento anterior com o médico Álvaro Machado, Ana Maria teve dois filhos.

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A mãe Ana Maria Machado gostava de ler e contar história para os filhos?

Tanto a mãe como a avó Ana Maria Machado sempre gostaram muito de ler e contar histórias para os filhos e netos. Aliás, não fez mais do que prolongar a neta e a filha Ana Maria Machado que sempre gostaram muito de ouvir histórias de seus pais e avós, com ou sem livros.

Ainda falando da mãe Ana Maria Machado: você gostava de brincar com seus filhos? Quais as brincadeiras que você lembra brincar com eles?

Muitíssimo, sem parar. Sempre adorei brincar de escola com eles, por exemplo, em que eles eram os professores e eu e os bonecos éramos alunos . Ou na praia, irmos cedo para os recifes, na maré baixa, brincar com os peixinhos, caramujos e caranguejinhos, fazer castelos de areia com um laguinho ao lado e cheio de algas, e trazer para o lago os bichinhos que tínhamos apanhado nas pedras – e depois, na hora de voltar para casa, soltá-los de novo.

Como os pais podem fazer dos momentos de leitura com os filhos, momentos prazerosos? A brincadeira ajuda?

Acho que não há muito mistério nisso, é só escolher livros bons e divertidos, que permitam que todos brinquem e se divirtam, se emocionem e riam , sem preocupação de ficar ensinando nada.

A vida de escritora infantil começou a pedido da revista Recreio, ainda em 1969. Neste período foi exilada pela ditadura brasileira e viveu trabalhando como jornalista na revista Elle em Paris e no Serviço Brasileiro da BBC de Londres, além de se tornar professora de Língua Portuguesa em Sorbonne. Paralelamente, nunca deixou de escrever as histórias infantis, que continuavam a ser publicadas pela revista e só a partir de 1976 passaram a sair em livro.

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Continuando a escrever para crianças, em 1977 ganhou o prêmio* João de Barro pelo livro História Meio ao Contrário. O sucesso foi imenso e levou à publicação de muitos livros até então guardados na gaveta. Dois anos depois, junto com Maria Eugênia Silveira, decidiu abrir a Malasartes, a primeira livraria infantil do Brasil , que co-dirigiu por 18 anos, apostando na inteligência do leitor, na criteriosa seleção dos titulos a partir de um conhecimento acumulado, na liberdade de escolha, na convicção de que ler livro bom é uma tentação irresistível e um direito de toda criança. O sucesso foi tal que, daí a um ano, só no Rio de Janeiro, havia 14 livrarias que buscavam seguir o mesmo modelo.

Como é a sua relação com seus pequenos ou grandes leitores?

Eu costumo dizer que o maior prêmio de um escritor é um bom leitor. Um leitor que entende, qualquer que seja a sua idade, é um presente. E quando ele entende, não confunde a relação com o livro e a relação com uma pessoa. Para mim, o importante é que meu leitor se aproxime do que eu escrevo, e não de mim. Muitas vezes a pessoa física do escritor pode atrapalhar o contato com a obra. Uma coisa que me preocupa muito nessa esfera é não ser injusta, não privilegiar um leitor em detrimento de outro. Se eu começar a conversar muito com um, como vou fazer para conversar igualmente com todos os outros? Só através do livro, que é justo e democrático. Mas adoro quando o leitor se manifesta.

Também foi editora, uma das sócias da Quinteto Editorial, junto com Ruth Rocha. Há mais de três décadas vem exercendo intensa atividade na promoção da leitura e fomento do livro, tendo dado consultorias, seminários da UNESCO em diferentes países e sido vice-presidente do IBBY (International Board on Books for Young People)

O acesso ao livro infantil já é bem mais amplo nas escolas. Esta valorização da leitura e em ter livros também acontece com as famílias? Os pais estão dando mais valor ao livro como algo para as crianças terem?

Aos poucos, sim. Mas quando se trata de pais que não tiveram intimidade com livros desde pequenos ( e no Brasil; essa injustiça ainda é muito frequente), isso é bem mais difícil.

Do que a Ana Maria Machado gosta quando não está escrevendo?

Muita coisa, é difícil resumir. Mais que tudo, acho que é estar com pessoas de quem gosto e que gostam de mim. Mas gosto também de estar na natureza, perto do mar, de água e de árvores. E de ouvir música, ler, dançar, ver bons filmes, ir a teatro bom. Viajar. Ir a museus e mercados. Aprender coisas novas e inesperadas. Conversar com gente interessante. Ter um tempo sozinha e recolhida comigo mesma. Comer fruta e salada. Pão. Cuidar de jardim. Cheiro de terra depois da chuva. Dormir bem. Silêncio, ah, gosto muito de silêncio, mas isso está ficando quase impossível.

Por favor, complete a frase: Brincar é….

Muito gostoso. A gente nunca devia desaprender.

Eu simplesmente amei. E você?

*Os prêmios conquistados ao longo da carreira também são muitos, de se perder a conta. Entre eles, 3 Jabutis, o Machado de Assis da ABL em 2001 para conjunto da obra, o Machado de Assis da Biblioteca Nacional para romance, o Casa de Las Americas ( 1980, Cuba), o Hans Christian Andersen, internacional, pelo conjunto de sua obra infantil (2000), o Príncipe Claus (Holanda), o Iberoamericano SM de Literatura Infantojuvenil(2012) , o Zaffari & Bourbon (2013) por melhor romance do Biênio em língua portuguesa . Foi também agraciada, em alguns casos mais de uma vez, com láureas como : Premio Bienal de SP, João de Barro, APCA, Cecilia Meireles, O Melhor para o Jovem, O Melhor para a Criança, Otavio de Faria, Adolfo Aizen, e menções no APPLE (Association Pour la Promotion du Livre pour Enfants, Instituto Jean Piaget, Génève), no Cocori (Costa Rica), no FÉE (Fondation Espace Enfants, Suiça) e Americas Award (Estados Unidos).

Se você buscar por “livro brincante” vai encontrar uma série de outros autores queridos e muito valiosos para a literatura infantil brasileira. Vale ler suas entrevistas. E para não perder mais nada, faça parte da nossa Newsletter. É simples, basta se inscrever gratuitamente e você receberá no seu e-mail uma mensagem por semana com nossas novidades.

3 Comments

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  1. 1
    Maisa

    Que delícia de entrevista! Quero, agora mesmo, sair em busca de alguns de seus livros para ler para a Manu, minha filha.

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