A brincadeira e a inclusão do ponto de vista de quem passou por isso

A brincadeira e a inclusão do ponto de vista de quem passou por isso


Se você acompanha mais vezes o blog do Tempojunto, sabe que já tratamos várias vezes sobre a questão da inclusão das crianças com deficiência por meio do brincar. Mas para quem se interessa pelo assunto e perdeu algum post, no final deste tem a lista completa.

Quando eu entrevistei o Bruno Straforini e a Flávia Lima, criadores do canal É Libras no Youtube, a palavra que mais me chamou atenção foi “naturalidade”. Esta naturalidade é a principal mensagem destes dois jovens que passaram pela experiência do brincar na infância com a visão que quem tem a deficiência. Bruno tem deficiência auditiva e fala o idioma Libras. Flávia é cadeirante.

A brincadeira e a inclusão do ponto de vista de quem passou por isso - foto bruno e flavia

 

Sobre a criação do canal, Bruno e Flávia dizem: “Refletimos sobre o privilégio de termos o outro por perto pra poder desabafar, trocar experiências e renovar estratégias pra viver nesse mundo de cobranças. Na mesma hora pensamos na quantidade de pessoas que vivem o que nós vivemos mas não tem alguém que compreenda essa situação pra poder conversar. Filmamos o primeiro vídeo (…) com uma mensagem que nós dois pensamos ser importante falar.”

E o que eles falam sobre o brincar, a brincadeira e a inclusão:

Tempojunto – A brincadeira é inclusiva ou não?

Bruno – A brincadeira não é inclusiva, ela é natural.

Flávia – A brincadeira é um dos únicos lugares onde não temos regras, então nada mais inclusivo que a naturalidade.

Tempojunto – Vocês brincavam quando crianças?

Bruno – Eu brincava normalmente com meus amigos ouvintes na rua. Minha família nunca privou, nem obrigou que eu tivesse brincadeiras específicas de surdos. Eu brincava de esconde-esconde, de taco e nem as crianças ouvintes tinham esta distinção comigo. Quando eu podia brincar de algo direto eu brincava. Em outros momentos, as crianças ouvintes mesmo adaptavam a brincadeira. Nada era adaptado quando eu brincava na infância. Eu gostava (e gosto) muito de vídeo-games, por exemplo e não há games para surdos.

Flávia – Quando eu era criança eu não era cadeirante, mas tinha já uma limitação física de locomoção. Me lembro de brincar com tudo naturalmente. E quando chegava num limite, ninguém dizia: “Ah, vamos parar ou mudar agora porque a Flávia não pode”. Eu era a única criança com deficiência no meu grupo de amigos e tudo que dava para ser adaptado era, mas era feito na hora, entre a gente. Como o Bruno, era muito natural. Eu brincava muito na rua.
Gostava muito de apostar corrida de bicicletas.

A brincadeira e a inclusão do ponto de vista de quem passou por isso - foto bruno

 

Tempojunto – A família de vocês não colocou barreiras no brincar de vocês. Como foi a relação entre vocês e seus familiares no brincar?

Bruno – Minha família disponibilizou para mim brincadeiras que eles conheciam de crianças ouvintes. O que me ensinaram eram brincadeiras e brinquedos típicos de qualquer criança. Nada havia adaptado para surdos. Eu nem pensava que poderia haver qualquer distinção.

Flávia – Eu também não me lembro de meus pais buscarem algo mais fácil ou adaptado por causa da minha limitação. Ao contrário, eu tenho mais dois irmãos e sempre brincamos juntos com todas as coisas. Eu fazia até onde conseguia e fazia coisas diferentes.

Tempojunto – Como era o brincar na escola?

Bruno – Infelizmente eu não tenho coisas boas para falar da época da escola. Os professores eram mal informados e muitos tinham pena, em lugar de facilitar a inclusão. Para jogar futebol ou vôlei eu era sempre excluído. Os alunos é que me puxavam para brincar. Eu não entendia porque não podia, por exemplo, jogar bola se era uma brincadeira que eu fazia em casa. Eu lembro muito da repressão dos professores no meu contato com as brincadeiras com outros alunos.

Flávia – Eu sentia a mesma coisa na escola. E, em geral, eram os alunos que me incluíam nas atividades porque os professores não sabiam como fazer, e me deixavam de lado. Mas esta vivência nos fez aprender a não dar ouvidos quando uma pessoa acha necessário nos limitar por nossa deficiência. Nós sabemos até onde podemos ir. Os limites, se existirem, existem a partir de nós. Mas quando você é criança e não entende porque você fica sentado no banco enquanto as crianças estão brincando, corre o risco de se acostumar com a situação.

A brincadeira e a inclusão do ponto de vista de quem passou por isso - foto flavia

 

Tempojunto – O que vocês diriam para os pais de crianças com deficiência e têm esta preocupação de encontrar brincadeiras e brinquedos adaptados?

Bruno – Para vocês que têm filhos surdos e se preocupam com as brincadeiras que eles podem brincar, o que podem fazer é trabalhar a autonomia e formas que ele possa se comunicar, como uma fono ou a linguagem de sinais. Sem essa de “meu filho tadinho”. Tenham orgulho dele para ser como ele é.

Flávia – O que tenho a dizer é que vocês se preocupam com as brincadeiras porque olham para a deficiência dos seus filhos. Mas eles não se vêem assim. Nós não vemos. Quem vê a deficiência é quem está de fora. Deixem que eles sejam eles mesmos. Eles vão encontrar o que os diverte. O que eu gosto da brincadeira é que ela não tem regras, não é para ter distinção. Brincadeira é brincadeira. Vocês saberão qual a brincadeira ideal como qualquer criança sabe qual é a brincadeira preferida.

Tempojunto – Brincar é…

Bruno – Brincar é naturalidade.

Flávia – Brincar é brincar.

E ponto final, não é gente?

O vídeo com a entrevista deles está muito legal. Você confere aqui:

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