Stephen Michael King: o autor das emoções infantis


Eu confesso que tenho autores de histórias infantis da minha preferência. Mas são tantos que nem cabe uma lista aqui. E alguns são bem especiais, daqueles que, mesmo eu adulta, quando leio para meus filhos, renovo as emoções infantis e fico com um brilho diferente nos olhos.

Tenho a missão no Tempojunto de conversar com autores, escritores, ilustradores e até tradutores de livros infantis. Chato,né? kkk Quase “caí de costas” quando a Ana Maria Machado nos respondeu; ou quando me liguei que a Lúcia Hiratsuka fazia pilates comigo (e me deu uma entrevista na padaria mesmo); ou quando em encantei com o carinho do Lalau e Laurabeatriz! E o André Neves? E a Patricia Auerbach, o Ilan Brenman? E autores novos, com ideias ótimas, como a Janine Rodrigues? Ou a Gilda de Aquino, que não é escritora, mas já traduziu uma enormidade de livros infantis e conhece muito do “riscado”. Bom, melhor parar kkk.

Mas tudo isso só para dizer que fiquei mega feliz em ter como primeiro autor internacional entrevistado para o Tempojunto, ninguém menos que Stephen Michael King. Se você não leu um livro dele para seus filhos, leia. Porque a beleza dos textos e das mensagens dos livros dele são de emocionar adultos e fazer você considerar ter um outro estilo de vida – mais leve e brincante – no dia a dia. E as crianças enxergam as histórias de King como uma extensão óbvia da vida.

Definitivamente, um autor com atitude brincante, mesmo com os filhos crescidos.

Ele conta neste primeiro trecho da entrevista que sempre brincou com os filhos pequenos e que ainda hoje tem tempo para fazer alguma atividade junto com eles. No dia em que conversamos ele havia brincado de skateboard com a filha, de 22 anos.

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Brincadeira com garatujas

Apesar de sempre haver uma mensagem sobre a vida em cada livro de Stephen, ele não inicia seus livros por este ângulo. Em sua cabeça só está a vontade de escrever uma história divertida. Ele explica que tenta viver a vida do modo mais criativo possível. Se qualquer mensagem surge, “é porque escapou do meu subconsciente”, diz.

Já eu enxergo em seus livros um ar de vida plena, possibilidades de expressar-se livremente, vencer barreiras de preconceito com gentileza, carinho; equilíbrio na vida; amor puro e uma gratidão para as pequenas coisas. “Quando escrevo, tento contatar a minha criança interior”, afirma o autor.

E ele prefere começar a desenhar a partir de garatujas, desenhos livres, sempre circulares (como os das crianças pequenas) e a partir daí, os personagens “pulam das linhas”, ele explica.

Nascido na Austrália, Stephen Michael King sofreu uma perda auditiva aos 9 anos e teve dificuldades na escola. Com o apoio de seus pais e da professora, o menino descobriu que conseguia se expressar e compreender as coisas lendo, desenhando e escrevendo. Estava posta a semente que germinaria como a árvore de um de seus livros (A Árvore Magnífica) e se transformaria num trabalho apaixonante. “Se eu não tivesse me tornado um autor-ilustrador, seria um ermitão-hippie, sentado sob o sol e fazendo colares de margaridas o dia todo”, diz em seu site.

Aliás, vou fazer uma pausa para mostrar alguns dos livros de Stephen.

E sim, como não poderia ser diferente, ele lia muito para os filhos. Mas o momento de leitura nunca foi só leitura. “E no meio da leitura tem também brincadeiras, cócegas. Ler para meus filhos nunca foi só ler. É aproveitar o tempo que temos juntos. Mesmo quando na hora da leitura a gente não lia, mas ficava criando diálogos, brincando de fantoches com as mãos. Era meu tempo com eles.”, explica.

E olha só o conselho do autor: “Quando você é pai/mãe você pode gastar seu tempo dizendo para seus filhos amarrarem seus cadarços ou comerem cenouras. Mas se você investir este tempo em ler para eles ou brincar com eles, você cria uma relação mais bonita, forte e segura com eles”. #ficaadica

Quero escrever e brincar

E quando a gente fala deste vínculo que é mais importante que cenouras, King dá o exemplo do pai, com quem aprendeu a sensibilidade para as coisas. “Mas foi meu pai quem me permitiu ser sensível. Ele sempre conversou comigo sobre todos os tipos de assuntos, e eu não tinha problema algum em chorar ao lado dele.”

“Eu escrevi “O urso e a árvore”, enquanto meu pai estava vivendo com câncer. Ele morreu uma semana depois que eu terminei a última ilustração. Eu não poderia escrever algo reflexivo ou emocionalmente desgastante depois dessa experiência. Eu amava meu pai, fiquei muito triste sem ele por perto. Ele era “O homem que amava caixas”.” Já “Pedro e Tina“, são o livre retrato do autor e sua esposa. “Mas não tenho esta intenção. Eu simplesmente escrevo e estes personagens aparecem”, conta.

Porém, ele também concorda que suas histórias são muito próximas de sua forma de ver o mundo. “Meus livros são um pouco pedaços de mim. São partes mais coloridas de mim. Então eu adoraria ser como Guto (Ana, Guto e o Gato Dançarino), tocando música e fazer malabares. Estes personagens me lembram como estas coisas são importantes e como é fundamental ter tempo livre, relaxar um pouco mais e brincar (olha aí de novo). E que as crianças pudessem ser mais como Duda’s (Duda adora pular)”.

Aliás, King é uma pessoa que prefere viver, sentir e escrever em lugar de ficar conjecturando sobre seus livros. Ele se sente feliz porque suas histórias fazem as pessoas ficarem mais alegres. “Quero escrever, desenhar e brincar”, explica um tímido autor que raramente concede entrevistas. A última para o Brasil foi em 2010, no lançamento de seu livro “Folhas” em português.

“Eu sou uma pessoa emocional. Quando escrevo, tudo vem de um centro emocional. Emoções infantis. Sempre espero que as pessoas sintam emoções diferentes quando lêem minha histórias. Minha imaginação me leva a muitas viagens. Eu também reservo tempo para brincar. Brincar com idéias, com meus filhos e família, com meus cachorros, com o céu. Eu amo afeição espontânea, dar e receber”, escreveu em seu blog.

O trabalho de escrever brincando

Com tantas referências ao brincar em sua vida e seus livros, perguntei ao Stephen se ele acredita que seus livros são brincantes, se seria possível pegar as ideias do livro e trazê-las para a realidade. “Sim, eu acredito que sim. Veja, nós estamos vivendo um mundo ocupado, e os pais está mais ocupados, os adultos estão ficando mais ocupados e por nos preocuparmos com as crianças, nós as estamos pressionando mais, fazendo com que trabalhem mais. Eu acho que deveríamos nos tornar mais espertos e acordar um dia e trabalhar menos e brincar mais”. Veja o trecho da entrevista.

E ele também alerta para uma habilidade linda das crianças que está sendo perdida porque estamos constantemente arranjando coisas para elas fazerem ou se entreterem: o poder de descobrir.

Ofereçam livros e deixem as crianças escolherem

Nas obras de Stephen, os detalhes são muitas vezes os personagens principais. Em seus livros, as caixas, os personagens descalços, a natureza, os riscos únicos e mesmo o silêncio das palavras são os elementos que amarram as histórias e dão vida a pensamentos únicos. O livro que mais gostou de desenhar, “Folha”, foi o primeiro sem palavras e ele gostou da experiência de deixar as pessoas definirem como “ler” seu livro.

“Eu pinto o que eu chamo de “espaços interiores” e “espaços exteriores”. Os interiores são introspectivos e os exteriores, expressivos. Se meus personagens estão dentro, eles estão mais presos e isolados daquilo que realmente importa em suas vidas.
Tudo acontece nos grandes espaços abertos. Eu acho que a criatividade mora em um lugar especial entre o que está certo e o que está errado. É um lugar onde não há sinais verdes ou vermelhos, apenas exploração sem julgamento. Meus personagens sempre estão vivendo ou procurando esse lugar também.”, ele contou para a revista Crescer, em 2010.

A dica dele para nós pais incentivarmos a leitura é deixar bons livros à disposição dos filhos e deixar que eles escolham o que mais gostarem de ler.

Sobre o brincar

Se você nos acompanha, já percebeu que toda entrevista eu termino pedindo para o entrevistado completar a frase: Brincar é…

“Posso dizer que brincar é criatividade. E é importante contar que meus pais acreditavam no brincar, e certamente na educação pela brincadeira. E ter mentes questionadoras e com vontade de descobrir são frutos da brincadeira. No brincar aprendemos que não há uma resposta certa para nada. Temos várias possibilidades para uma questão.”, afirma King, completando o que disse no vídeo.

“E meu pai era um grande sonhador. Ele sempre quis inventar grandes coisas e sempre falava para a gente sobre suas ideias malucas. Então, cresci numa família com ideias muitas vezes bobas. Mas nunca criticávamos nenhuma delas. Porque a partir de uma ideia mais maluca, podemos pular para outra e desta para outra e daí surgirem ideias realmente incríveis.”, mais um #ficaadica!

Uma coisa que notei em nossa conversa foi como o pensar de Stephen e como ele elabora suas respostas é muito parecido com seu jeito leve, “redondo”, e sensível de desenhar. E qual não foi minha alegria (mais ainda), quando ele resolveu fazer um desenho para o Tempojunto, resumindo como ele estava se sentindo naquele momento com nossa conversa.

O vídeo está aceleradinho, mas eu te convido a ver como o autor trabalha ao vivo. Ele contou enquanto desenhava que quando brinca com as linhas no papel, nem precisa olhar para o que está desenhando. E que ao desenhar, ele vai mudando o resultado do desenho. (o personagem é o Guto, que já citei acima).

No final, anotem na agenda. Stephen Michael King estará no Brasil em novembro deste ano, de 2018. Eu vou tentar muito conhecê-lo pessoalmente :)

Sempre estamos atrás de autores brasileiros (e agora estrangeiros) de livros que a gente gosta para entrevistar e trazer um pouco a você sua história e seu amor pelos livros. É o que chamamos de leitura brincante. Porque ler é uma imensa brincadeira. Se você quer acompanhar nossas dicas, inscreva-se na Newsletter Tempojunto. É gratuita e semanal.

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