Importância do Brincar: onde a brincadeira se encaixa no Século 21. Entrevista com Vera Iaconelli


Vera Iaconelli * tem um jeito muito peculiar para falar sobre humanidades. Em geral, seus textos publicados no jornal Folha de S.Paulo e as palestras que apresenta em todo o País são cheias de profundidade, apesar da fala direta e sem rodeios. “A ideia de garantia da ligação entre mãe e bebê só gera expectativas insustentáveis”, ela, por exemplo, afirma. Não no sentido de deprimir a mãe, mas de estabelecer uma clareza que nos tira do “peso” que muitas vezes a maternidade traz.

Psicanalista e doutora em psicologia, colunista da Folha de S.Paulo, diretora do Instituto Gerar, que tem como objetivo promover, oferecer tratamento e desenvolver pesquisas no âmbito da perinatalidade e da parentalidade, ela falou ao Tempojunto sobre a brincadeira.

Vou começar com o depoimento dela sobre o brincar e a brincadeira para o filme “O Começo da Vida”, da Estela Renner.

Vera conta que assim como o bebê muda e se torna criança, também os pais têm que aprender a ‘trocar de casca’. E as fases do brincar também acompanham este movimento.

Formação da humanidade

Se a gente quiser formar humanos tem que existir o brincar no Século 21. Porque brincar é condição da formação da humanidade”, explica a psicanalista. “É condição da formação da fantasia, do exercício da empatia, do jogo com a inteligência e da possibilidade criativa”. Escute a opinião dela sobre o papel da brincadeira nos tempos de hoje:

 

 

“O brincar não está só restrito à criança, mas vai se deslocando para outras funções, conforme crescemos, que se transformam no trabalho do adulto”. Na opinião de Vera, o trabalho é algo de decorre da criação do brincar. “Só vamos mudando de feição, mas o adulto brinca. Brinca quando trabalha, quando se diverte, e muitos objetos que adquirimos têm o caráter de brinquedos”. Concorda?

Outras agendas em detrimento do brincar

 

 

No áudio acima, a continuação do nosso bate-papo, Vera Iaconelli explica que há um equívoco dos pais hoje em dia, em acreditar que as crianças precisam estar em numa agenda de atividades para ter um desempenho melhor na vida adulta. “O equívoco está no fato de estas atividades serem dirigidas por um adulto, que sabe o que tem que ser feito e como fazer. O que não há é o espaço em que a criança, se havendo com o vazio, precisa criar a partir dele”, explica.

O próprio fato de os adultos apresentarem materiais não estruturados (papelão, caixas, por exemplo) para a criança já não permite que ela faça a escolha dos objetos e os subverta em brinquedo.

“Temos um certo pavor do ‘vazio’, e vamos enchendo a crianças de atividades pelo bem do desenvolvimento dela. Mas faz parte do bom desenvolvimento da criança se haver com o vazio e criar algo dali”, afirma a especialista.

Ela vai mais longe e nos conta: “Este processo de agenda cheia e falta do vazio é até perigoso em termos de saúde mental. O excesso de atividades afeta o desenvolvimento psíquico, no sentido que a criança cresce uma pessoa que tem medo de, ao se deparar sozinho consigo mesmo, sem uma atividade dirigida, ser levado à depressão.”

Um espaço para o alívio

Vera explica que a brincadeira é algo tão sério que as pessoas a “patrulham”. Quando a brincadeira deveria ser o espaço onde a pessoa poderia fazer tudo aquilo que fora do contexto do brincar não é possível. Ouça.

 

 

Quando eu pergunto para Vera sobre a brincadeira livre e como podemos explicar sua relevância aos pais, sua resposta é muito clara: “Os pais de antigamente sem se faziam esta pergunta sobre brincar livre. Era só deixar brincar. Hoje existe uma busca de conhecimento sobre o brincar que vem fazer frente a uma perda de espontaneidade da brincadeira que os adultos impuseram às crianças”.

De qualquer forma, ela explica que o brincar livre é deixar a criança explorar um objeto e subverter este objeto com segurança, onde o adulto não precisa propor nada. As crianças entre si organizam as brincadeiras. O ideal seria que as crianças tivessem oportunidade de experienciar tudo: o brincar estruturado e o lúdico.

 

 

Na visão da psicanalista (e que nós concordamos), os pais não têm que promover a brincadeira; eles têm que promover as condições para o brincar: o espaço seguro físico e mental para que a brincadeira advenha. E promover o tempo suficiente para a brincadeira acontecer. “Pais promoverem uma brincadeira é um contrasenso”, diz. “Aliás, o adulto deveria dar condições para que as crianças brinquem até com eles (adultos). Para que a mente do adulto seja também subvertida pelos filhos e a brincadeira deixe de ter caráter de aula.”

Cuidando da saúde mental dos seus filhos

 

Este áudio acima merece ser ouvido. Infelizmente, há notícias na imprensa a todo o momento falando sobre o aumento dos diagnósticos de problemas de saúde mental das crianças e jovens. Claro que parte disso acontece porque os diagnósticos hoje são mais apurados, permitindo uma descrição mais precisa das doenças.

Por outro lado, a brincadeira é um agente de saúde mental, no sentido de permitir que a criança crie seus próprios desafios e entre eles se encontre com o nada. Um espaço onde ela deverá produzir algo, sem ficar esvaziada. O vazio precisa ser preenchido com algo que seja dela. “E a criança ao praticar isso, não se sente ameaçada pelo descobrir-se a si mesma e criar a partir destas descobertas”, contou-me Vera.

O reflexo da brincadeira na vida adulta

Vera acredita que a brincadeira é um processo que não tem perda. Ou seja, nada do que ela proporciona para a vida da criança se perde ao nos tornarmos adultos. “Brincar é a forma como o ser humano e o cérebro vão se desenvolvendo na relação com os objetos, na relação com a fantasia, com a criatividade, com as relações sociais e o seguimento de regras. A brincadeira é o ‘estágio embrionário’ daquilo que o adulto precisa para estar no mundo”.

O adulto emerge destas etapas que não podem ser puladas e precisam ser vividas uma a uma. A criança que não brinca, vai ter seu reflexo nele como adulto. No brincar a criança exercita o que vai usar na vida adulta. Ouça a explicação de Vera.

Com toda esta contextualização do brincar, eu não me espantei nem um pouco quando pedi para Vera Iaconelli completar a frase “brincar é…”:

“Brincar é uma das melhores formas de estar vivo.”

Concorda?

*É Mestre e Doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo, Membro de Escola dos Fórum do Campo Lacaniano SP. Membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, Professora convidada do setor de Especialização em Psicologia Hospitalar da Maternidade São Luiz. Professora convidada do setor de Psicologia do Hospital do Coração, Conselheira Técnica da Associação de Doulas de São Paulo ADOSP. Diretora e professora no Instituto Gerar.

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