Entrevista com Pedro Bandeira: leitura brincante e respeito às crianças

De cara vou avisando, ouvir Pedro Bandeira é uma experiência mais incrível que lê-lo. Então, aqui abaixo está o vídeo com nosso papo. Para momentos em que vale à pena dar uma paradinha e simplesmente ser feliz!
Mas durante nossa conversa, uma das sugestões mais contundentes do escritor Pedro Bandeira foi: leiam. Incentivem as crianças a ler. Ler também para os adultos!
Por isso, aqui está a entrevista na íntegra. Para você ler Pedro Bandeira e se deliciar com suas opiniões.
Nascido em Santos, São Paulo, em 1942, Pedro Bandeira mudou-se para a cidade de São Paulo em 1961. Trabalhou em teatro profissional como ator, diretor e cenógrafo. Foi redator, editor e ator de comerciais de televisão. Como escritor, sua carreira iniciou com primeiras histórias infantis publicadas em revistas de banca da Editora Abril, em 1972.
A partir de 1983, tornou-se exclusivamente escritor, com o livro O Dinossauro que Fazia Au-au. Sua obra, direcionada para crianças, jovens e jovens adultos, reúne contos, poemas e narrativas de diversos gêneros.
Em 1984, Bandeira lança o livro A droga da obediência, que deu início à sua série de maior sucesso: Os Karas.
(com informações do site Editora Moderna)
Caso você não conheça todas as obras do Pedro Bandeira, aqui tem uma listinha.
Brincar é o trabalho da criança
Pedro Bandeira
“Todos dizem que criança não trabalha. Com brinquedos, cacarecos, toda tralha. Ela leva sua vida só na flauta. Faz bagunça, mexe em tudo essa peralta.
Mas brincando é só alegria o que ela espalha.
Um palhaço de rapé, que com boneca, com carrinho, com peão e com peteca, vira o mundo e parece que nem cansa.
E que fique a brincar essa sapeca, pois, brincar que é trabalho de criança.
Ela finge que é doutora ou enfermeira. E fingindo passa assim a tarde inteira. Ela treina para um futuro que virá. Vai levando a sua infância até a fronteira de um adulto em que se transformará.
Isso eu sei, pois sou a fada das crianças. Estou plena de alegrias e confianças.
Por saber que esse por vir já está perto. E acompanho esse mundo de esperanças, com a certeza de no fim tudo dá certo.”
(depois de ler a poesia para mim, em resposta ao ter-lhe dito que o Tempojunto trabalha com a conscientização sobre a importância do brincar).
Pedro Bandeira
Porque é isso mesmo. A gente não entende que todo o jogo que a gente faz a vida inteira é trabalho sim. Você está aprendendo, está raciocinando. E realmente a criança que não tem a chance de brincar, que têm a agenda cheia de cursos: “vai fazer curso, vai estudar língua estrangeira aos dois anos de idade”, tem que fazer balé, judô…Essa criança não tem tempo para ela. Esse tempo para ela é fundamental.
Tempojunto: Pedro Bandeira brincava quando era criança?
Pedro Bandeira
Eu fui um menino muito solitário, porque eu só tinha dois irmãos muito mais velhos. Então depois da escola, eu chegava em casa e brincava sozinho o tempo todo. Jogava botão comigo mesmo, arranjava uma varinha e ficava lutando espada contra o espelho. Então o tempo todo eu vivi com a minha imaginação.
Como eu lia muito, eu tinha o que alimentasse a minha imaginação.
Eu tenho um livro chamado “Brincadeira Mortal”, que é justamente isso: o menino se imagina super-herói e é cheio de ideias justamente por isso.
A Ruth Rocha tem um livro muito bacana em que a criança protesta contra roubarem o tempo dela. A criança protesta: “eu quero tempo para mim”. A reflexão de uma criança é muito importante.
Quando você enche a criança de coisas para fazer, não dá, você esvazia a criança; você não preenche, você esvazia.
Livro, gibi, romance ou mistério: ler é uma brincadeira
Tempojunto: Pedro, você acabou de falar que você lia muito, então essa leitura te trouxe essa brincadeira de imaginar e de faz de conta que é fundamental na vida da criança.Livro pode ser uma brincadeira?
Pedro Bandeira
Pode. Porque eu nunca li para ficar inteligente. Eu lia para me divertir. No meu tempo era moda o gibi. Tinha muito gibi. Hoje o gibi foi substituído pelos joguinhos de celular. Mas eu lia muito gibi porque o gibi era muito democrático. Você comprava um, levava para a escola e trocava com os amigos.
Daí você passava para o livro, mas não havia essa coisa de adoção de literatura em escola. Líamos Monteiro Lobato. Como não havia muitos livros de autores brasileiros, passávamos às traduções. Mark Twain e Robert Louis Stevenson, por exemplo.
De repente, você estava em um livro já adulto e não tinha notado. Eu gostava de aventura, depois mistério e policial.
Eu lembro que eu queria ler O Crime do Padre Amaro, porque eu achava que era um livro que era um livro de mistério em que o padre tinha cometido um crime. Eu não fazia ideia do que era na verdade (risos). Então eu lia mais que todo mundo porque o livro era meu brinquedo, era meu brinquedo.
Outra coisa: nas leituras obrigatórias hoje há indicação de idade. Ora, bom para a idade é o que a criança quiser. Claro que há uma orientação dos adultos, mas deixem vários livros à disposição para a criança escolher o que prefere.

Pedro Bandeira
Educação não é um problema só da escola. Educação é um problema da família. A escola entra tarde demais na vida da criança. Até uns três anos de idade toda personalidade humana já está formada. Depois você vai aprimorando, acrescentando coisas, mas você é o que era.
A formação da criança é responsabilidade também da família
É a família que tem que comprar livrinho para os filhos. Ler o livro junto com a criança, desde que ela é um bebê. Mas não temos este costume.
Isso acontece porque fomos durante muitos anos um povo analfabeto. Muito recentemente temos escolas para todas as crianças. Nós não tínhamos. Quando eu estudei, metade da população era absolutamente analfabeta, ou analfabeto funcional.
Então ler para os filhos é uma coisa muito nova. Você faz um trabalho muito novo de dizer para o papai e para a mamãe: “você tem a ver com a educação do seu filho”.
Tempojunto: Tivemos esse período de pandemia, principalmente no primeiro ano, em que a educação ficou confinada e os pais tiveram que fazer muitas vezes o papel de professores. Você acha que essa experiência dos pais pode ajudar na educação como um todo? Tanto na valorização da educação, como o papel dos pais na educação dos filhos sendo mais importantes do que os pais imaginam?
Pedro Bandeira
Teria ajudado, se houvesse o que você disse. 80% das crianças não tiveram isso, 80% não tiveram. Ou por falta de costume, ou porque o papai trabalha o dia inteiro; mamãe trabalha o dia inteiro e a criança ficava na televisão.
Essa educação virtual, a aula virtual não teve, a maioria não tem um tablet em casa.
E não tem pai e mãe orientando, até porque pais poucos letrados têm pouco a dar para os seus filhos.
A mamãe tem que ajudar nas lições. Mas nem ela entende. Essas crianças estão zeradas, Patrícia, estão zeradas. O problema das professoras vai ser enorme, está sendo enorme.
Quando falo com professores, digo: “esquece todas as outras matérias. Incentiva a criança a ler muito e escrever muito”. Para se apropriarem da língua, para conquistar a proficiência leitora, a compreensão de texto. Porque todas as matérias estão escritas, quer seja no papel, quer seja na tela.
Se o aluno lê mal, ele irá mal em História, irá mal em Geografia, irá mal até em Matemática. Pois o problema de matemática é um enigma em Língua Portuguesa, que (o aluno) tem que ser decifrar para saber qual a conta que deve fazer.
Tempojunto: E os professores conseguem perceber se a sociedade está valorizando mais a escola?
Pedro Bandeira teve um livro seu que defende a natureza taxado de marxismo cultural
Pedro Bandeira
Eu gostaria, mas não é isso que está acontecendo. O pai procura a escola para reclamar e reclamar coisas sempre materiais. “Eu me sacrifico para comprar um tênis de grife para a minha filha, mas eu chio quando a professora manda comprar um livrinho”.
Essas crianças não veem o pai lendo um romance, a mãe lendo um romance.Não se compram livrinhos coloridos para o bebê, para a criança pequena. Então não estão valorizando não. Claro que há exceções. Mas são exceções.
Eu por exemplo tenho recebido muito mais pela editora a notícia de de pais que foram a escola para reclamar de uma adoção de livro. Por exemplo, eu tenho um livro sobre a proteção da natureza que se chama Pântano de Sangue. Uma mãe disse que aquilo era marxismo cultural; defender a floresta é marxismo cultural.
Tempojunto: A minha pergunta, então é, com todos esses, entre aspas, cancelamentos de autores, cancelamentos de obras, reclamação exacerbada do conteúdo de livros, principalmente de livros infantis. A gente tem que parar de ler um autor por causa de uma opinião que ele teve em algum momento da vida dele? A obra está acima do autor?
Pedro Bandeira
Se o livro for ruim, ele vai morrer. Deixa a criança escolher, a criança é muito mais franca do que o adulto. Um adulto pode ter lido um livro meu e não gostado, mas ele fala: “muito bem!” Por educação.
A criança fala: “não gostei”. Você tem o direito de parar de ler porque não gostou do livro.
Engraçado, como essas pessoas valorizam o livro, a força do livro. Eu já tive problemas com um livro para nono ano que tinha a palavra “calcinha”. Então, é um problema miserável. Eu tenho um outro em que eu queria mostrar que a mulher tem uma maturidade anterior ao homem, a menina de 12 anos já é quase uma mocinha e o colega dela ainda é um moleque
Eu quis mostrar isso e fiz um menino dizer para o colega: “você viu que está nascendo peitinho na fulana?” Nossa! Deu o maior rolo! Agora o filho pode assistir no streaming as coisas mais malucas. Agora no livro não! Porque eles dão tanta importância ao livro? Então veja como o livro é importante.
Então, deixem as crianças escolherem seus livros. Depois quando ela ficar maiorzinha ela chega na escola, o colega fala de outro livrinho, ele vai na biblioteca, a bibliotecária indica outro livro, aí ele já está livre, deixa ele livre. Agora cancelar… Eu posso não gostar. Há livros que eu não gosto, a filmes que eu não gosto, nem por isso o cinema é uma porcaria.
No meu tempo lia-se menos. Hoje lê-se mais graças à luta dos professores
Tempojunto: Com 60 anos de carreira, 80 anos de vida, como você avalia a relação das crianças com o livro? Melhorou ou ainda a gente precisa falar “no meu tempo que era bom”?
Pedro Bandeira

Não, não, realmente não. Eu estava conversando com a minha querida amiga, quase minha irmã Marisa Lajolo. Eu falei: “Marisa, no meu tempo de escola todo mundo lia porque a nossa turminha lia”. Ela falou: “nós quem, cara pálida?”
Aquela turminha que discutia, indicava livros era a minha “patotinha”. O resto não lia não.
É muito melhor hoje. Os professores estão lutando bastante. As crianças e os jovens hoje leem mais do que seus pais leram; muito mais do que seus avós leram. Graças aos professores.
Tenho um exemplo, de uma menina que me escreveu em 1984 dizendo que detestava ler, mas havia gostado de um livro meu. Continuamos nos correspondendo e em 1988 ela já me escrevia discutindo a “Odisseia” de Homero e “Canaã”, do Graça Aranha, em quatro anos de “eu odiava ler” ela chegou a Homero.
Ela chegou a partir do estímulo da escola.
Então, apesar de todo obscurantismo que nos assola atualmente, as professoras estão sabotando esse obscurantismo; sendo subversivas e fazendo essas crianças lerem.
É necessária que nas escolas públicas haja boas bibliotecas,porque o texto escrito estimula mais a imaginação. No livro você tem que imaginar a cara de uma pessoa zangada, a cara de uma pessoa feliz. Você imagina, você escreve junto.
Por exemplo, nos meus livros infanto-juvenis, eu não deixo que os personagens sejam ilustrados.Eu prefiro só umas vinhetas para enfeitar a página. Sobre isso, eu tenho uma carta muito antiga que me emocionou demais. A carta de uma menina de Brasília que gostava muito de ler um livro romântico que eu tenho, que se chama “A Marca de uma Lágrima. A personagem se chama Isabel.
– “Pedro, eu gostei do seu livro, mas eu tenho uma bronca. Porque a Isabel não é negra? Eu sou negra e nunca me vejo nas histórias”.
– “Meu amor, eu não disse qual é a cor dela. Ela é uma menina apaixonada”.
Agora ela está tão acostumada a ser escanteada, a ser excluída, que ela nunca se ver em um herói.
Pedro Bandeira escreve enfocando as emoções das crianças. Na linguagem delas mesmas
Tempojunto: Pedro, você falou que você escreve sobre as emoções das crianças. Como você vê hoje as crianças tendo o direito de expressar as suas emoções, e não serem taxadas de: “é birrento”, “é mal-educado”, é difícil”.
Pedro Bandeira
Depende muito das famílias, mas bem menos do que eu gostaria. Eu acho que a literatura, arte, falam sobre as emoções humanas. Por isso que Shakespeare é vivo até hoje. Ele não escreveu sobre o tempo dele, mas sobre amor impossível, o ciúme, a cobiça, inveja, traição. Isso sempre existirá.
Essa é a minha ideia. Tenho alguns livros meus que foram escritos antes do celular, em que os personagens vão no orelhão, botam uma fichinha para telefonar para o outro. Mas o livro não é sobre celular. É sobre emoções, sobre raiva, paixões. E cada livro meu é assim.
Tanto que os meus livros de poesia, como esse que eu mostrei para você, são sempre escritas como se fosse uma criança escrevendo. É assim: “Vou para a casa da vovó, todo mundo briga comigo”, É a criança falando. Eu deixo meus personagens fazerem birra, deixo falar o “meu irmão menor é muito chato, mas também não briga com meu irmão, eu posso brigar, você não.”
Tem outro pema que fala assim:
“A minha tia matrona vive no cabelereiro, para fazer um penteado, passa lá o dia inteiro. Logo que volta para casa continua a se arrumar, senta-se à penteadeira e começa a se pintar. Bem atento com capricho, olha firme para o espelho. Pinta os olhos de cor de roxo e a boca de vermelho. Com a pinça tira pelos, enche a cara de poeira, pinta de rosa a bochecha e sorri toda faceira. Mas o que eu não entendo é para que tanto se estica, se é para ficar bonita, porque ela não fica?” (risos)
Eu tenho que entrar na psique dela e dar alimento para as emoções dela. Esse tipo de poesia é para ela. Poesia é emoção, tem que ser emoção do meu leitor, não a minha. Eu tenho que falar disso.
Tempojunto: E sem medo de falar de emoções reais, não é? A gente não precisa falar que tudo é feliz, tudo é alegre e tudo tem que ser contente.
Pedro Bandeira
Claro, não tem não. Tem que ter raiva, tem que ter ciúme, é normal. Mas você tem o direito de errar. Eu tenho um livro que chama-se “Ciúme”, onde uma menina é muito ciumenta e ela sacaneia muito a colega. Ela quer ganhar o namorado da colega. Só que eu não a puno no fim, ela tem o direito de se arrepender.
Quando você é jovem, é criança, você tem o direito de errar, quando adulto não dá. Se você erra como adulto é difícil dar a volta por cima. Mas um adolescente pode dá a volta por cima.
E como é que o autor Pedro Bandeira e a pessoa Pedro Bandeira se adaptou aos tempos modernos digitais com os seus interlocutores vendo você pelo Instagram ou pelo Youtube ou pela telinha?
Pedro Bandeira
Bom, eu não seria capaz, mas o meu filho me fez entrar. Ele é técnico. Aí eu entrei, eu até perguntei o que é Instagram? Eu não sabia o que era Instagram, o que é podcast?
E foi muito divertido porque você consegue atingir mais gente. Muita coisa mudou para melhor, mas a gente sonha sempre em nunca parar de mudar. Não podemos parar de mudar, nós temos que continuar mudando, continuar caminhando. Tem aquele poeta que diz: “caminhante não há caminho, faz-se o caminho ao andar”. “Caminante no hay camino, se hace camino al andar” Ao andar você abre os caminhos. Então, você nunca pode parar.
O conservador é um cara que tem um poder hoje, então ele tem medo. “Se mudar eu perco o poder”. Não dá! A gente tem que aceitar o novo.
Brincando a criança se constrói
Tempojunto: Brincar é…
Pedro Bandeira
Brincar é vida. Brincar é a vida da criança. No brincar ela está estudando, ela está trabalhando. Ela está construindo a si mesma, porque é muito importante brincar. Quando ela brinca com colegas é um trabalho de equipe. Ao brincar sozinha ela faz sua tese de mestrado.
É tudo. Sem brincar você não vive. Aliás, até adulto brinca. Eu estou fazendo agora um livro muito difícil, mas muito trabalhoso na parte de ilustração e a minha mulher chega e fala: “mas você não para de trabalhar!”. Eu não estou trabalhando, eu estou brincando. É brincadeira, eu estou me divertindo!
Quando você faz o que você ama você não está trabalhando, você está se divertindo. Eu estou brincando, continuo brincando. Eu tenho um querido amigo, um grande ilustrador, o Eliardo França, que ele disse: “sabe Pedro, quando eu era criança eu ficava desenhando, passava o tempo todo desenhando e nunca trabalhei, até hoje eu faço isso. Nunca trabalhei na vida”. Estou aqui e estou brincando contigo. Estou batendo papo, brincadeira com amiga. Para eu ver o que você pensa, você ver o que eu penso.
Aliás, uma vez uma pessoa me perguntou assim em uma Bienal: “mas o senhor só escreve, não trabalha?” (risos)
– Não, não trabalho.