Livro Brincante: Lucia Hiratsuka – Memórias do oriente embaladas em contos infantis


Atualizado em 15/2/2018

A escritora e ilustradora Lúcia Hiratsuka poderia ser uma obviedade. Mais uma artista que a gente relaciona diretamente com as características do oriente: delicada, serena, com um profundo respeito pela memória dos ancestrais. Ela é tudo isso, mas está longe de ser óbvia em seus livros infantis. Autora de Muli (sobre o monstrinho que não assustava), Corrida dos Caracóis, Urashima Taro, e vários outros títulos infantis, Lúcia trabalha e conversa no ritmo da beleza que é seu trabalho: cheio de simplicidade e delicadeza.

Livro Brincante- Lucia Hiratsuka - Memórias do oriente embaladas em contos infantis - lucia com livro vermelho

Livro Brincante- Lucia Hiratsuka - Memórias do oriente embaladas em contos infantis - lucia com arte

“Quando era bem pequena, minha avó rabiscou um peixinho no chão do nosso quintal de terra. Gostei tanto que desenhei também e nunca mais parei. De lá para cá foram muitos peixes. Além do quintal, também as paredes das tulhas e o terreiro onde meu pai espalhava café enchiam-se de garatujas”, conta a autora em seu site. Esta mesma avó a inspirou a escrever Orie, de 2014. Em junho deste ano a pequena Orie deu à Lúcia o prêmio Monteiro Lobato, oferecido pela Revista Crescer ao profissional que mais obteve destaque no ano anterior. A obra, esgotada atualmente, resgata a infância da avó da autora, trazendo lembranças das viagens de barco que ela fazia com seus pais quando a família ainda morava no Japão.

Livro Brincante Lucia Hiratsuka - capa orie

Os livros japoneses

“Aprendi a ler com meu avô. Os livros lá de casa eram, em sua maioria, escritos em japonês e conheci também alguns ehons, livros com ilustração. E acho que foi a partir desses livros que nasceu o meu desejo de escrever e ilustrar. Na época, nem sabia que existia essa profissão, apenas sonhava um dia trabalhar com desenhos”, conta. Então, aos 16 anos, ela foi estudar. E o estudo não a abandonou até os dias de hoje. E quando Lucia une as técnicas aprendidas e as memórias de sua infância, a arte se faz presente, na forma de textos e lindos desenhos feitos com aquarela, lápis e o sumiê, a arte do desenho utilizando-se pincéis japoneses e o sumi, uma tinta escura a base de fuligem de alguns vegetais. Eu fiquei encantada ao segurar materiais tão incríveis.

Livro Brincante- Lucia Hiratsuka - Memorias do oriente embaladas em contos infantis - mao com pincel

Para Lúcia, transpor a vivência para a literatura é uma questão de técnica. “Até perceber que estas histórias do meu cotidiano poderiam virar histórias, passou-se um período de amadurecimento, quando eu fui estudar as narrativas”. Quando uma história me toca, emociona eu sei que dali virá uma curiosidade, um desejo, um encantamento e até uma dor, medo ou tristeza. E aí eu tenho material para trabalhar. Depois que passo para o texto, a história precisa ser independente do fato que a gerou. O personagem precisa ter alma própria”, explica.

Numa entrevista para a revista Crescer, a autora explicou seu processo de trabalho. “Houve época em que eu procurava histórias. Quanto mais eu queria uma história extraordinária, parecia que tudo já tinha sido contado. Aos poucos percebi que as histórias estão muito perto da gente. Comecei a encontrá-los dentro de mim, nos meus sentimentos, nos meus encantos, espantos, dúvidas, nas minhas brincadeiras de infância, ou num episódio contado por minha família. Coisas simples, mas que se transformam e viram uma história bacana. Não publico tudo o que escrevo, existem textos que ficam guardados para sempre.”

Livro Brincante- Lucia Hiratsuka - Memorias do oriente embaladas em contos infantis - muli

“Em geral, eu escrevo primeiro e depois ilustro. E, na hora de ilustrar, o texto vai tomando o formato final. Se consigo mostrar uma cena com o desenho, posso até cortar o texto, ou mudar. Isso é o mais gostoso, ficar jogando com texto e desenho. Mas tenho histórias contadas só com imagens e outros em que o texto é mais independente.”

Sem deixar sua formação, para Lúcia escrever significa, antes de tudo, estudar muito. E não publicar tudo que é criado, mas selecionar, tentar amadurecer devagar.

Seus primeiros trabalhos foram de ilustração, em 1989, quando era formada em Belas Artes. Nesta época Lucia conheceu outra autora e ilustradora, Eva Furnari (de Bruxa Zelda, Não Confunda e Travadinhas), e junto com ela é que nossa entrevistada conheceu o mercado de literatura infantil.

O mercado brasileiro e o gosto pelo oriente

“A memória da minha infância está muito viva e cada vez mais, conforme resgato isso com meus irmãos (ela tem 6). E percebo que não havia pudores em mostrar à criança o que são fatos da vida real”, conta Lúcia. Ela mesma gostava de histórias muito tristes. Depois da tristeza que o livro provocava, vinha a superação dela. Para a autora, as histórias ajudam a visualizar medos e dores que ao ganhar um “personagem” se tornam mais fácies de lidar. “A linguagem não precisa ser dura, só isso”.

Sabe que quando a história de um livro é bem elaborada, ela é universal. Lucia escreve lendas e contos da tradição oriental e percebe que seu público se encanta da mesma forma. Apesar disso, a autora encontrou algumas dúvidas das editoras em relação à aceitação do mercado. Será que os livros de Lúcia seriam usados somente em relação direta com o Japão, a imigração ou em datas especiais pelas escolas, por exemplo? Não foi o que aconteceu. Ainda bem.

A forma de escrever da autora amadurece à medida em que ela não deixa os estudos de lado. Recentemente, ela trabalhou com poesia e com a versão de poesias japonesas para o Português. “Estes exercícios me mantêm alerta pelo desafio”, explica.

Livro Brincante- Lucia Hiratsuka - Memorias do oriente embaladas em contos infantis - capa urashima taro

Com 20 anos envolvida totalmente com a literatura, Lucia acompanhou esta fase de incentivo à leitura infantil que tem havido. Na sua opinião, ela percebe que a família ainda deixa por conta da escola o estímulo à leitura. Mesmo assim, ela já vê pais que sabem da importância de estar com os filhos no momento da leitura. Ela cita, por exemplo, o projeto Leitura de Berço, do qual participou recentemente.

Por outro lado, ela percebe um aumento de cursos e especializações relacionadas à escrita ao livro infantil e ao desenvolvimento da infância disponível aos escritores.

Ainda há, continuando a opinião da artista, falta de divulgação dos livros, opções de leitura e da importância de oferecer livros aos filhos voltadas aos pais. “Os autores brasileiros dependem da venda em grandes volumes para escolas, porque a aquisição de livros no varejo pelas famílias é pequena”, conta. Ela atribui isso à cultura do País que prioriza outros bens em lugar do livro. “As famílias japonesas, como a minha, por exemplo, durante a imigração, vinham sem praticamente nada, para trabalhar na pequena agricultura aqui. Mas o livro sempre tinha seu lugar na bagagem trazida do Japão”, ilustra. Mas ela é otimista em relação a uma mudança da cultura do livro no Brasil.

A leitura para primeira infância

A percepção de Lucia é que até bem recentemente o bom livro para a primeiríssima (0 a 3 anos) infância eram traduções de autores estrangeiros. Pouca coisa era feita aqui no Brasil. A maioria segue a linha de ser um brinquedo-livro ou muito didático. Impressão confirmada em conversas da autora com especialistas em educação infantil.

Mudar este mercado só acontecerá, por sua vez, a partir da consciência da família sobre o valor do livro para a criança pequena. Para a editora, publicar um livro que dependa principalmente da compra nas livrarias (as escolas não adotam livros para esta faixa etária) é financeiramente desvantajoso.

E a autora sabe da importância da leitura para a primeiríssima infância. Ela mesma lembra de sonoridades antes de entender as palavras.

Quem quer conhecer os novos lançamentos da autora pode ler O Guardião da Bola, de 2015. Após este lançamento, a autora fará um período de “descanso da prancheta”, focando em oficinas e projetos com escolas. Mas em breve novas memórias do oriente estarão nos livros infantis da autora.

Para quem está começando, Lucia diz que hoje há mais editoras a quem mostrar um trabalho iniciante. Talvez, a dificuldade agora seja dos editores em escolher dentre a quantidade, o que tem qualidade. E a dica dela não poderia ser outra: estudar, estudar e quando achar que está bom, estudar ainda mais.

Livro Brincante- Lucia Hiratsuka - Memorias do oriente embaladas em contos infantis - lucia com os livros

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Em fevereiro de 2018, Lúcia Hiratsuka lançou mais uma obra linda para crianças e adultos: Chão de Peixes. Na resenha do lançamento, a explicação. “Inspirada nos haicais japoneses, Lúcia Hiratsuka pesca sons, imagens e sensações guardados bem lá no fundo da memória e, com a naturalidade e a delicadeza das pinceladas em tinta sumi, faz surgir a poesia que está na simplicidade do cotidiano. Em Chão de peixes ela nos convida a dar um novo sentido para a natureza que nos cerca. Entremeadas aos saltos do grilo no quintal, aos passos das formigas andando em fila, palavras sumiram, outras surgiram e se misturaram aos riscos e rabiscos do capim. Riscos que formam peixes, o chão que vira mar, lagartixa que vira lua, e até o tempo se torna outro…”

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