Marcelo Bueno mostra que o brincar na infância é um acontecimento com tempo próprio


Quando a gente fala sobre o tempo, tenho quase certeza que pensamos no relógio e no pouco tempo que temos para fazer tudo o que queremos. Já dizia Eistein que o tempo é relativo. Confesso que eu, Patricia Camargo, demorei para entender e acreditar nisso, até que percebi os anos “voarem”, como nunca havia notado quando eu era mais nova. E as crianças tem um tempo muito próprio que a gente teima em atropelar. Nosso entrevistado deste mês na coluna Importância do Brincar fala justamente sobre esse descompasso. Marcelo Cunha Bueno é pedagogo, colunista da revista Pais e Filhos, atualmente dá palestras sobre o desenvolvimento infantil enquanto é diretor na sua escola Estilo de Aprender, em São Paulo.

De cara, eu já perguntei a ele justamente sobre os diferentes tipos de tempo. Marcelo explica que os gregos já separavam o tempo em Cronos – o tempo marcado “no relógio”; Kairós – o tempo da oportunidade; e Ayon – o tempo da intensidade da experiência. Este ultimo é o tempo das crianças em oposto ao tempo do adulto social (cronos). Um exemplo simples para entender: se vamos brincar de casinha, a nossa tendência é montar rapidamente a casinha para começar a brincadeira. Ao passo que para a criança o tempo de montagem da casinha já é a brincadeira e pode até ser mais interessante que a casinha em si.

(Parênteses para reflexão desta coluna. A partir da afirmação acima, podemos compreender melhor porque um brinquedo “pronto” pode atrair menos que um “brinquedo que precisa ser feito”)

Veja como Marcelo explica estes tempos e a relação com as crianças. É muito bom.

O Ayon é um tempo muito difícil de ser cultivado atualmente. Na opinião do especialista, mesmo os espaços para brincar que existem hoje acabam oferecendo o tempo da oportunidade, ou seja, quem tem a oportunidade de estar aqui em determinado momento aproveita a brincadeira. A intensidade não tem muito controle. Veja neste outro trecho da entrevista, como o ayon se relaciona com a brincadeira. “Quanto mais destes pequenos momentos puderem ser aproveitados pelas crianças, mais elas terão seu imaginário conectado com a poesia da vida”, explica Marcelo.

Tem receita para aproveitar o tempo?

Brincar não é dar quantidade de tempo. Assim, nosso entrevistado começa a responder a pergunta do intertítulo. Mais vale pouco tempo de total entrega dos pais. “As famílias trazem muito esta questão. O excesso de trabalho, de informação e de opinião nos distanciam das experiências da vida”, diz.

Como Marcelo é diretor de escola, uma pergunta quase óbvia é como a brincadeira é resolvida no ambiente escolar. Bom, não é simples. Você vai ver neste outro trecho da entrevista que ele explica que muitas vezes a brincadeira se contrapõe ao ensino formal, tradicional e de resultados da escola. Mas não deveria ser assim.

Outro ponto que foi muito importante que abordamos com o especialista é se a brincadeira é mesmo inclusiva, tanto com relação a questões de gênero, de deficiências ou simples diferenças. A resposta não poderia ser outra. Sim, mas depende do repertório oferecido e, neste ponto, o adulto é importante. Veja.

“A brincadeira é o que há de mais generoso do ser humano para o mundo” – incrível, não é?

No final da entrevista, Marcelo coloca que quando temos um filho, precisamos ficar mais sensíveis à realidade nossa e das crianças. Existem todas as limitações de cada adulto que não permitem que ampliemos absolutamente todo o horizonte da vida às crianças. Mas dentro do possível é importante darmos o máximo de repertório e oportunidade para que elas descubram coisas diferentes da vida, seja subir em árvore ou brincar com um aplicativo eletrônico.

“O problema em relação, por exemplo, às tecnologias e, na verdade de qualquer outra brincadeira, é a falta do adulto. Quando ele não está por perto na apresentação de uma brincadeira, pode haver distorções em todos os sentidos”. Mais um especialista para confirmar que tempojunto de brincar é um tempo que vale à pena com nossos filhos.

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