Importância do Brincar: entrevista com Renata Meirelles e a essência da brincadeira

Importância do Brincar: entrevista com Renata Meirelles e a essência da brincadeira


Última entrevista de 2016 e eu (a Patcamargo) estou muito, muito feliz em ter a Renata Meirelles aqui. Uma rápida história. Eu me interessei por estudar e pesquisar brincadeiras porque precisava resolver minha necessidade de trabalhar com crianças e jovens ao dar aulas de inglês, aulas de dança e como uma das responsáveis pelas atividades de fim de semana do Grupo de Jovens da Paróquia Santa Teresa de Jesus. Por conta disso, li livros sobre brincadeiras e dinâmicas de grupos, fiz cursos e me tornei brinquedista. Tempos depois, já com meus três filhos, me indicaram o filme Tarja Branca (recomendo muito assistir). Este filme reúne minha opinião sobre o brincar, a criança e o que nós adultos estamos fazendo com a brincadeira. Este filme me levou a querer trabalhar com o brincar e foi assim que o Tempojunto apareceu na minha vida como um presente de Deus.

No Tarja Branca, uma das entrevistadas me chamou muito a atenção por suas ideias sobre o brincar. Era a educadora Renata Meirelles*. Então, desde que começamos com esta série Importância do Brincar/Brincar é Coisa Séria (frases que vieram do Tarja Branca), eu queria falar com ela. Dois anos e meio se passaram, a Renata desenvolveu o longa-metragem e agora projeto de transformação social, Território do Brincar, batemos um papo muito bacana sobre as transformações do brincar. Eu percebi que ainda tenho muito que aprender para dar à brincadeira seu verdadeiro lugar.

Ela começa o papo contando como a brincadeira passou de uma atividade de criança, para um objeto de pesquisa e um tema que embasa seu trabalho profissional. São muitas influências interessantes, como pesquisadores da infância como Lydia Hortélio, Adelson Murta, o Adelsin, Adriana Friedmann e Gandhy Piorky. Antes de iniciar a pesquisa que a levou a produzir Território, Renata trabalhou com escolas e professores, mostrando como a brincadeira deveria ser considerada no ambiente escolar.

Ela então começou a pesquisar brinquedos e brincadeiras e retratá-las em imagens. Em 2000 conheceu o documentarista David Reeks e no ano seguinte, os dois passaram quase um ano na Amazônia registrando brinquedos e brincadeiras em comunidades indígenas e ribeirinhas. O projeto autônomo levou o nome de “BIRA – Brincadeiras Infantis da Região Amazônica” e se transformou no projeto de mestrado de Renata. Com a pesquisa, produziram dois curtas-metragem e o livro “Giramundo e outros brinquedos e brincadeiras dos meninos do Brasil”, vencedor do prêmio Jabuti.

O documentário “Território do Brincar” é o resultado de uma viagem de 21 meses do casal pelo Brasil. Eles percorreram 14 comunidades em nove estados para estudar e mostrar as brincadeiras das crianças. Entre abril de 2012 e dezembro de 2013, estiveram em comunidades rurais, indígenas, quilombolas, no sertão, no litoral e em grandes cidades. Todo este material se transformou em um dos mais ricos registros da brincadeira livre e espontânea. Mas ela mesma conta o quanto o brincar e a brincadeira a formou desde criança.

“A brincadeira para a criança é quando ela se estabelece como ser. Ela e a si mesma na sua potência máxima e o brincar permite que esta conexào consigo e com o mundo aconteça o tempo todo”, afirma Renata. Neste trecho da entrevista ela conta qual a importância do brincar para as crianças e os adultos. “A criança não brinca para se tornar algo, ela é na brincadeira uma conexão com ela mesma. E para o adulto, ao brincar ele entra em contato com o próprio eu. A brincadeira pode conectar o adulto com sua própria expressão”, afirma.

A brincadeira não pode ser uma obrigação do adulto e da criança

Importância do Brincar_entrevista com Renata Meirelles e a essência da brincadeira_Foto_entrevistada

Renata conta que passou sua infância brincando sem a tutoria de um adulto. Quando pergunto sobre a relação, então, que o adulto precisa ter com a brincadeira e se este brincar dos pais com filhos é importante, a educadora responde categórica que sim. E conta o porquê e os benefícios neste trecho.

Como Renata teve experiência do brincar na escola, falamos sobre como as instituições de educação enxergam a brincadeira. “O que nos propomos com o Território do Brincar é que a escola possa olhar a brincadeira de forma espontânea. Sem que seja uma proposta lúdica ou uma indução, uma provocação. Queremos que a escola se beneficie do que vem genuinamente da criança”, conta. Se você é educador, vale à pena conhecer a opinião da Renata no trecho da entrevista abaixo.

Olhar utilitário

Nossa sociedade de maneira geral passou a entender a brincadeira como algo utilitário para a criança, ou seja, esperamos que a brincadeira aconteça para uma finalidade, que gere um resultado. Não deveria ser assim. A gente fala muito aqui no Tempojunto que a brincadeira só precisa acontecer. E que não precisamos nos angustiar com falta de estímulos ou de resultado. “Precisamos acreditar na brincadeira. Acreditar que ela em si já reúne todos os estímulos necessários para as crianças se tornarem adultos felizes. Há estudos que ja mostram que adultos que foram crianças que receberam muitos estímulos extras não cresceram necessariamente com todas as características de alguém totalmente adaptado e de acordo com o mundo. Mas, infelizmente, ainda não acreditamos na força da brincadeira”, alerta a educadora.

Neste trecho, Renata faz uma análise muito crítica e de alerta sobre como estamos encarando a formação das nossas crianças.

Precisamos, no final, só ter tranquilidade para saber que está tudo bem.

Eu perguntei à educadora se há falta de espaços adequados para brincar, seja em centros urbanos ou em vilas ribeirinhas. A resposta dela corrobora o que outros especialistas nos disseram. “O que falta principalmente é o tempo para brincar. Todos os demais recursos a criança vai encontrar. Eu reforço a necessidade do ócio. E tempo ocioso é estar longe de telas, de gadgets. É um tempo realmente sem fazer nada”, conta.

No trecho abaixo ela explica melhor a questão do tempo e a importância, no caso do espaços, de ter o contato com a natureza.

Carrinho de boi ou o carrinho de controle remoto. As brincadeiras são diferentes nas diversas partes do Brasil. Mas também são iguais. Enquanto há cores diferentes no brincar em seus contextos sociais, há intensões iguais.

“A brincadeira como toda expressão cultural não é estanque e isso não é ruim e não vai mudar. A brincadeira sempre se transforma e se adequa, como qualquer expressão cultural”, declara Renata. E esta mudança também trouxe mudanças na própria Renata. “Temos que entender não qual brincadeiras estão no momento, mas se há condições para que as crianças brinquem: consigo oferecer ao meu filho tempo livre? Ele tem uma relação social de autonomia que permita o contato e convivência com outras crianças? Consigo proporcionar espaços diferentes de exploração do mundo e da natureza para meus filhos? Estas são as questões que devemos ter”.

*Renata Meirelles é Mestre em Educação pela Faculdade de Educação da USP, idealizadora do Projeto BIRA – Brincadeiras Infantis da Região Amazônica – e do Projeto Território do Brincar, em correalização com o Instituto Alana. Autora do livro “Giramundo e outros brinquedos e brincadeiras dos meninos do Brasil”, vencedor do Prêmio Jabuti em 2008, e do “Cozinhando no quintal”. Codiretora de diversos filmes de curta-metragem e do documentário “Território do Brincar”.

Fontes de consulta: Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, EBC e Mapa do Brincar

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2 comentários

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  1. 1
    Edinho Paraguassu

    Concordo ipsis litteris com a Renata, e fico refletindo sobre quantas escolas ainda têm no brincar apenas um objeto pedagógico e não um espaço natural, livre e espontâneo de conexão da criança para com ela mesma, um espaço de conexão e respeito com o outro, com o diferente, etc.

    • 2
      Patrícia Marinho

      Também concordo, Edinho, e considero a forma como a escola encara a brincadeira um excelente critério de escolha do ambiente escolar para os filhos.
      Obrigada pelo comentário!

      Patrícia

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