Você no Tempojunto: Hedrienny Cardoso e a experiência com filhos com deficiência


Eu conheci a Hedrienny Cardoso no Facebook, quando ela me enviou uma foto da sua filha Júlia brincando com uma atividade que postamos aqui, de cantinhos com massinha, canudos e macarrão. Só depois que ela comentou foi que percebi que a Júlia, tinha, entre todas as outras características de uma menina feliz de 3 anos, a deficiência visual. Como a gente sempre fala aqui que a brincadeira é a mais inclusiva das atividades das crianças, convidei a Hedrienny para participar da coluna Você no Tempojunto. Então descobri que o currículo da Hedrienny deve ser bem parecido com o seu: trabalha fora, na área administrativa, divide os afazeres da casa com o marido, que também trabalha fora e a babá e é mãe. Mãe de três filhos como eu. Mas dois de seus filhos, o Daniel e a Júlia, além de todas as outras características de crianças pequenas, têm deficiência visual e, no caso do Daniel, também autismo.

Mas outra coisa que a Hedrienny tem em comum comigo, com você, com a gente, é que ela é uma pessoa que valoriza a brincadeira e sabe da importância dela para seus três filhos. E é por isso que ela está aqui, para contar sobre sua rotina, seu dia a dia e a relação com a brincadeira na sua família.

Você no Tempojunto Hedrienny Cardoso e a experiência com filhos com deficiência - foto hedrienny

Tempojunto – Como é a rotina de vocês?

Hedrienny – Eu trabalho em período integral. Sou coordenadora financeira de um shopping aqui em Brasília. Meu marido também trabalha; é gerente de desenvolvimento.
Temos uma verdadeira operação logística em casa rs. Daniel (5 anos, quase 6) vai pra escola de manhã e fica em casa à tarde com a babá. Júlia (3 anos, quase 4), fica em casa de manhã com a babá, e vai pro colégio à tarde. Pedro (1 ano) fica em casa o dia todo com a babá.

Dan e Júlia estudam em um colégio “especial” para deficientes visuais aqui em Brasília, Dan vai todo dia e a Júlia duas vezes por semana. O colégio que Júlia frequenta é um contra turno regular, com metodologia montessoriana. Lá ela faz atividades como balé, música e também atividades pedagógicas. Ela convive com crianças sem deficiência, e é muito bem aceita por todos.
O Daniel infelizmente ainda não está preparado para frequentar um colégio regular, pois além de ser deficiente visual, tem autismo. E este é um fator que dificulta sua socialização. Hoje no CEEDV (Centro de Ensino Especial para Deficientes Visuais) ele tem total suporte e atendimento de uma professora especializada (excelente por sinal) exclusiva para ele. Isso tem ajudado muito. Em um colégio “normal” ele não teria esse apoio… Já tentamos e foi um desastre.

Tempojunto – Em que momentos a brincadeira entra na rotina de vocês?

Hedrienny – Sempre brincamos à noitinha, quando todos estão em casa, e aos fins de semana. A noite é bem corrida, e temos uma rotina para ir dormir, mas faço questão de pelo menos ler um livro. Júlia é a criança mais brincante que conheço! Topa tudo! Tem muita criatividade e imaginação. Mesmo com algumas limitações ela sempre se envolve!

Dan já é um pouco mais limitado, o autismo somado à cegueira diminui esse potencial imaginativo e por isso temos um pouco mais de dificuldade em envolve-lo na fantasia. Mas quando tem algo mais motor e concreto na brincadeira, ele gosta! Parquinhos são a brincadeira favorita dele.

Você no Tempojunto Hedrienny Cardoso e a experiência com filhos com deficiência - foto hedrienny e filhos

Tempojunto – Seus filhos brincam juntos? Você consegue brincar com eles em algum momento?

Hedrienny – Sim. Júlia ajuda muito Daniel! Ela convida ele, e chama pra brincar. Consegui muitos avanços com Daniel com apoio dela!

Tempojunto – Como é a relação da Júlia com os irmãos na hora de brincar?

Hedrienny – A Júlia é nossa parceira! Impressionante como cativa a todos e contamina Daniel de forma positiva. Ela é uma líder nata! Se impõe e ninguém passa a perna nela rsrsrsrs. Tinha um pouco de dificuldade em dividir, mas hoje em dia já superou. O carinho entre eles é a coisa mais linda que já vi… Daniel procura por ela, é a única criança que ele aceita. Ela desperta interesse nele.

Tempojunto – Você se preocupa em ter brincadeiras “especiais” ou “adaptadas” para a Júlia, ou prefere deixar acontecer o brincar naturalmente?

Hedrienny – Sim, brincadeiras e atividades direcionadas para deficientes visuais são muito importantes. Sobretudo o desenvolvimento da coordenação motora fina, habilidade que eles precisam desenvolver para a escrita e leitura braille.

Mas, Dan e Júlia já são supridos disso no colégio. Por isso, em casa eu tento brincar de coisas tradicionais apenas direcionando a forma de brincar, usando o tato, olfato e audição a favor deles. Júlia brinca de TUDO. Boneca, comidinha, carrinho… Ela até desenha! Me pergunta “mamãe, que cor desse lápis?”. Eu respondo verde da cor da grama, vermelho da cor da maçã etc… Direciono para o concreto e dá super certo.

Você no Tempojunto Hedrienny Cardoso e a experiência com filhos com deficiência - foto julia brincando

Tempojunto – E com relação a brinquedos?

Hedrienny – Daniel tem preferência por Brinquedos sonoros, musicais… Júlia gosta de tudo! Brinquedo de montar, brinquedo caseiro, boneca, tudoooooo na vida rsrsrsrs. Pedro, com um aninho, entra na farra e se interessa por absolutamente tudo que os irmãos estejam brincando. O mercado tem muito brinquedo adaptado e em braille, mas como eles ainda não são alfabetizados em braille, não vemos necessidade em adquirir apenas brinquedos “especiais”. O colégio concorda com esse posicionamento. No quarto deles, tenho um alfabeto em braille em MDF, para que eles possam tocar de forma espontânea na cela braille e despertar interesse, aos poucos.

Tempojunto – Qual a importância da brincadeira na vida da família? Você acha que a brincadeira ajuda no desenvolvimento dos seus filhos?

Hedrienny – Brincar com os filhos é uma das formas de demonstrar amor, cuidado, interesse… Quando a família consegue se envolver, mesmo numa rotina super agitada, o vínculo é fortalecido. Não somos uma família típica, ter um filho com deficiência não é fácil. Ter 2 filhos com deficiência então… É um desafio constante! Nosso caçula, Pedro, não tem nenhuma deficiência, então a diferença entre eles é enorme! Embora Daniel e Júlia sejam cegos, Daniel tem autismo e o direcionamento que temos com ele é totalmente diferente do que praticamos com Júlia, e Pedro.

Você no Tempojunto Hedrienny Cardoso e a experiência com filhos com deficiência - criancas no balanco

Aprendemos com Júlia e Daniel que a deficiência visual não é NADA, e isso não os impede de serem crianças normais e brincantes. Pois antes de serem deficientes, cegos ou autista, são apenas CRIANÇAS.

Tempojunto – Complete a frase: brincar é…

Hedrienny – Obrigação de criança.

Se você gostou deste post e não quer perder nossas próximas sugestões, cadastre-se na nossa lista para receber a nossa newsletter semanal por email. É grátis.

Ah! E se quiser saber mais sobre o brincar e inclusão acesse o nosso E-Book gratuito – criado especialmente para responder perguntas sobre como trabalhar a brincadeira e os brinquedos para crianças com deficiência, que você pode ler e consultar onde estiver. Fazendo um cadastro você tem acesso a dicas e informações importantes para tratar a brincadeira de forma inclusiva para as crianças com deficiência, podendo ser consultado onde você estiver. Basta clicar na imagem abaixo:

8 Comments

Comente
  1. 1
    Jeane

    Amo o trabalho de vocês!!! Aprendo muito, tem me acrescentado conhecimento e muitas aprendizagem!!! Parabéns pela iniciativa e o pelo trabalho que faz!!! Forte abraços

  2. 3
    Thalita Knupp Almeida de Carvalho

    Achei maravilhoso! Que exemplo, que mãe forte, que crianças lindas! Parabéns pela família!

    • 4
      Patrícia Marinho

      Né? A Hedrienny é uma inspiração para a gente também! Ficamos muito felizes em poder compartilhar a história dela.

  3. 5
    KARINNE AZEVEDO DE MEDEIROS

    Parabéns pelo tema! A brincadeira é importantíssima para uma criança com deficiência; a falta dela causa uma lacuna para toda a vida. Nasci com deficiência visual, fui educada em escola montessoriana…. brinquei muito, mas trago recordações meio complicadas, porque as crianças desandavam a correr e eu não conseguia acompanhar sem machucar. Então eu não podia brincar de pega, nem de esconder com batida, nem de outras coisas assim do jeito das outras…. Alguém poderia ter intervido e pensado em outra forma para eu conseguir participar, mas isso não acontecia quase nunca. Então eu mesma é que tentava fazer isso, mas, muitas crianças videntes juntas, nem sempre querem adaptar nada. Então simplesmente eu deixei de brincar cedo, comecei a estudar demais e assistir televisão demais e hoje sou servidora federal do MPF e tento brincar um pouco com meu filho, que enxerga normalmente, até para suprir essa imensa falta que sinto até hoje.

    • 6
      Patricia Camargo

      Karinne, que depoimento importante para estar aqui para as pessoas que lerem o post. Porque realmente ter um mediador pode facilitar quando as próprias crianças não encontrarem com facilidade brincadeiras que incluam a todos. Muito obrigada

+ Leave a Comment

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.