André Neves: o autor que desenha narizes


André Neves é uma das excelentes novidades no mundo literário infantil. Talvez você o conheça mais pelo seu traço.
O “autor que desenha narizes” é como meus filhos o chamam aqui em casa. Olhando a imagem abaixo dá para perceber porque:

lino2

Mas André é bem mais que um ilustrador, apesar de ele se identificar assim no início de nosso papo. Ele é um autor infantil de mão cheia, que consegue levar a leveza dos seu traços para as palavras e, ao mesmo tempo, lidar com assuntos profundos de maneira poética e linda de ler.

Dizer que ele é “novidade” na literatura infantil, claro, é um exagero que usei porque a gente tende a não conhecer os autores mais recentes que Monteiro Lobato, Rute Rocha ou Ana Maria Machado (rsrsrs). Mas creio que você já deve ter se deparado com algum livro do autor:

Gaúcho de Recife

André Neves nasceu no Recife, mas mora em Porto Alegre. Durante a infância ele sempre esteve em contato com livros, que sua mãe, professora da APAE, deixava pela casa, assim, sem mais nem menos, para que os filhos os encontrassem. Também por conta da mãe, o ilustrador tomava contato com artes, desenho na forma de artesanato que fazia com os irmãos e vendia ainda menino.

Com a avó, que sempre lia o que quer que fosse para o menino André, aprendeu a sentir o ritmo das palavras. Em 1995 começou a ilustrar livros em 1995. Aos poucos a arte de contar histórias a partir das imagens o encantou profundamente. “Para mim é algo mágico (ilustrar) por que sou um ser humano visual, meus pensamentos e minha sensibilidade desenvolvem-se mais através do olhar. É incrível fazer os outros perceberem o mundo com o olhar e entender as relações da imagem no cotidiano”, explica.

A brincadeira e os livros brincantes

Para o Tempojunto, o autor deu a seguinte entrevista.

Tempojunto: Você brincava quando criança?

“Eu brincava muito”, contou André. “Eu tive a sorte de ser uma criança que nasceu no subúrbio da cidade do Recife e morei em casa. Minha casa tinha um pátio e eu tinha irmãos e muitos colegas que moravam próximos. A vida sempre foi recheada de muita brincadeira”, completa.

E esta brincadeira também acabou influenciando seu desenhar e escrever. “O brincar é algo constante na minha forma de escrever, até porque o livro, para mim, é um livro para a infância”, explica o autor. “Eu procuro colocar nos livros as relações que possam ter com o ato do brincar”.

Mas ele não vê simplesmente o ato de brincar com a leitura. O autor vai mais além. Falo de você ter a possibilidade de estar com o livro – adulto e criança juntos – e transformar o momento da leitura em uma brincadeira para os dois. O adulto, como mediador de leitura, e a criança que se diverte tendo o livro como um passatempo”, conclui. Tem como não curtir ler para os filhos, gente?

As crianças de hoje e o brincar

Tempojunto: Como é que um livro pode ser brincante?

“O livro é realmente uma brincadeira. O próprio ato de manuseá-lo, quando nele constam imagens e uma história para a infância, já funciona como uma brincadeira, uma vez que, tanto a cor quanto a imagens, funcionam como uma forma de entretenimento”, conta André Neves. Aliás, se ele pudesse chamar um de seus personagens para brincar no quintal de sua casa, Malvina seria a escolhida. “Ela é uma inventora cujas invenções são muito criativas. Por serem criativas, são invenções brincantes, e é sempre bom criar a partir de uma brincadeira”.

Tempojunto: Você percebe a brincadeira na vida dos seus leitores?

O ilustrador comenta que seu contato com seus leitores em geral acontece no âmbito escolar, em momentos de descontração e alegria dos alunos por estarem em contato com o autor dos livros que leram.

Mas André comenta como é muito importante ver que a arte em si está integrada à escola. “Quando isso ocorre, eu percebo que todo universo da escola gira em torno de algo mais leve, porque trata-se de brincadeira e o brincar tem que ser leve. Senão a escola acaba adotando parâmetros de muita dureza, de um regime muito ordenado para completar essa criança com conteúdos e, talvez, a escola não perceba que alguns conteúdos poderiam ser muito mais bem repassados por meio de uma leveza que a própria brincadeira tem”, afirma.

A escrita para as crianças

Em geral, eu gosto de saber dos autores com quem converso sobre a complexidade de escrever para crianças. E no caso de André Neves, que trata de assuntos profundos em sua essência, este tema me interessou ainda mais.

Mas para ele não há diferença entre escrever para os adultos e para crianças, a não ser a relação com a linguagem. A linguagem que um escritor escolhe é o que realmente faz a diferença.

Entretanto, grandes livros para a infância têm os mesmos assuntos os quais podem constar em grandes livros publicados para adultos. O que difere um do outro é a linguagem e a proposta que o escritor coloca dentro dessa criação.

“O difícil hoje, além de tudo, é poder ser, acreditar naquilo que a gente faz e tentar ir contra esse mercado tão comercial. É você tentar assumir uma postura profissional de criação literária. E, além disso, ser realmente um promotor da leitura, fazer com que ela aconteça porque, se não for assim, não vale a pena fazer um trabalho de qualidade”, comenta.

Felicidade é brincar

Na parte final da entrevista, eu perguntei a ele como os pais poderiam ser agentes de incentivo à leitura dos filhos. André ja começa a resposta assim: “Incentive a leitura, mesmo que você não seja um leitor ‘de carteirinha'”.

Inclusive, André Neves acha interessante pensar que todas as pessoas percebem a importância que a leitura tem na vida de uma pessoa, mesmo aquelas que não leem. “Uma coisa em que eu acredito muito é que, mesmo aqueles indivíduos que não são leitores ou aqueles os quais não têm o desenvolvimento da leitura, que não tiveram esta oportunidade, podem ser formadores de leitores”, diz.

Na opinião do autor e ilustrador, formar leitores não precisa passar necessariamente pelo diálogo de uma pessoa lendo para outra. “Só de você deixar livros disponíveis para as crianças já é formar um leitor. Considerar na casa o livro como algo importante já cria a curiosidade pela leitura”, explica.

Claro que nossa pergunta final seria Brincar é…

SER FELIZ!

Faz tempo que confabulo imagens. Algumas ficam na imaginação, outras, saem para os livros. Nem sei quantos. Sou pura imagem. Risco e rabisco. Só sei ser assim. Como se alma ilustração, fosse. Um borrão desenhando pelo tempo. Um pouco pernambucano um pouco gaúcho. Confabulando na vida muitas histórias.

+ Seja o primeiro a comentar

Comente

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.