Aceleração da infância gera adultos despreparados para o futuro – entrevista com Kathy Hish-pasek


Talvez você não tenha ouvida ainda o termo “aceleração da infância”, deste jeito, estruturado. Mas certamente, como eu também, já passou pelo incrível impulso de querer que nossos filhos estejam à frente dos demais em alguma coisa.

Quem não olhou para o bebê do vizinho e vendo alguma diferença, resolveu “dar aquele empurrãozinho”, para o filho sentar logo, começar a engatinhar ou andar. Confesso, eu também. Pelo menos com meu mais velho. E achando que estava contribuindo para que ele se desenvolvesse melhor.

Mas a aceleração da infância aparece mais claramente no período do meio para o final da Primeira Infância, entre 3 e 6 anos. Porque somos bombardeados com a necessidade de os nossos filhos saberem falar um segundo idioma, saber ler e escrever, ter noções matemáticas e cantar de cor todas as músicas de apresentação de final de ano da escolinha.

Temos pressa e educamos filhos apressados

Em um mundo no qual a pressa do tempo passa a influenciar diretamente o que pode e o que não pode ser feito, inclusive a maneira ou nível de qualidade de como devem ser conduzidas as atividades, a lógica de acelerar a infância pode fazer muito sentido e suas implicações passarem despercebidas, devido, sobretudo, à própria falta de tempo para refletir com atenção.

Por trás deste movimento de tentar apressar os processos relacionados ao desenvolvimento das crianças, escondem-se problemas que podem ser desencadeados na vida adulta, justamente, devido a uma infância fragilizada, na qual a criança não teve tempo de ser criança, brincar livre e espontaneamente, sem preocupar-se com os resultados do seu agir. ***

Este parágrafo resume a armadilha da Aceleração da Infância.

O adultizado não tem melhores chances

Além disso, ao acelerar a infância dos nossos filhos, querendo que eles entrem no mundo competitivo de estar preparados para um futuro que nem nós sabemos qual será, também aceleramos como tratamos nossos filhos no dia a dia.

Explico melhor. Ao entendermos as crianças como mini-adultos, tendemos a trará-las como adultos. Esperamos delas reações de adultos, respostas de adultos, comprometimento de adultos, compreensão das emoções como adultos.

E aí a aceleração da infância entorna o caldo das relações.

Porque crianças são crianças, pensam como crianças, agem como crianças, têm emoções de crianças. E, como eu gosto de dizer: “Nós já fomos crianças, então sabemos como é. As crianças nunca foram adultos”. Quem precisa entender quem, nesta equação?

E a ciência têm provado, já a algum tempo, que a criança adultizada não tem melhores chances que a criança que teve seu tempo de desenvolvimento respeitado.

“Quando as crianças têm o tempo todo ocupado com milhões de atividades, a única coisa que iremos gerar nelas é uma exaustão. E isso nada tem a ver com a possibilidade de serem pessoas curiosas, proativas, antenadas, relacionais com as pessoas e com o mundo e suscetíveis a transformações, características que me parecem ser necessárias daqui para frente. Ao contrário, serão crianças apáticas, enfadadas, não querendo absolutamente mais nada”, argumenta o Coordenador do Observatório da Cultura Infantil (Obeci) e professor na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), no Rio Grande do Sul, o pedagogo Paulo Fochi.**

A necessidade de desacelerarmos as crianças definitivamente não é coisa de “gente que não pensa no futuro dos filhos”. Bem ao contrário. São pessoas que perceberam que ao colocar na balança, a partir das pesquisas científicas, não há vantagem real em manter as crianças sob uma visão de mini-adultos ou “adultos estagiários”.

Einstein teve tempo para brincar

Para falarmos mais sobre este assunto, conversei com Kathy Hirsh-Pasek, cujo currículo na área de educação infantil é tão extenso, que coloquei no final deste texto. Mas ressalto que ela é autora do livro “Einstein Teve Tempo Para Brincar”, que é um dos livros de cabeceira do Tempojunto.

No livro, entre outros assuntos, Kathy traz comprovacões que uma criança que passou pela aceleração da infância não necessariamente é mais esperta ou inteligente ou tem melhor desempenho que outra.

Ela conta que nós vivemos em um mundo muito apressado. Mas nos sentimos cada vez mais e mais apressados, e não temos mais tempo de olhar nos olhos dos nossos filhos.

Fácil falar

Pois é. Eu também acho mais fácil falar que fazer. Isso porque somos bombardeados diariamente como adultos sobre a necessidade “vital” de sermos socialmente produtivos, o quanto antes. Sobre termos que estar à frente dos demais, para garantirmos nosso futuro. Sobre o quanto temos que economizar tempo (????) para produzirmos mais em menos horas.

São centenas de anos, desde o início da produção agrícola, sendo incentivados a sermos uma fábrica de alto desempenho e produtividade.

Mas, vamos lá. Ninguém aqui está dizendo para deixar que as crianças fiquem sem nenhum estímulo, nenhum suporte, nenhuma educação de conhecimentos e saberes. O ponto é entender até onde estamos estimulando o desenvolvimento e onde passamos a acelerar o processo. Kathy Hirsh-Pasek coloca seu ponto de vista.

Até o corpo cobra a conta da Aceleração Precoce

Em reportagem publicada na revista Veja em outubro de 2010 já trazia estudos mostrando que a criança reflete em seu físico o processo de adultização, com a chegada antecipada da puberdade.

Segundo dados do relatório Children & Nature Network, as crianças brasileiras estão entre aquelas que tem menos contato com a natureza. Doenças que passaram a ser comum entre as crianças nos dias de hoje, tais como transtorno de hiperatividade, déficit de atenção, depressão, pressão alta e diabetes, obesidade, estão diretamente ligadas com a falta de natureza.****

Mas podemos reverter esta adultização dos nossos filhos a qualquer momento. Nossa entrevistada, Kathy Hish-pasek dá pistas de como podemos ao mesmo tempo, respeitar as etapas de desenvolvimento das crianças e deixá-las mais preparadas para o futuro: “Podem ajudar falando com os filhos, não para os filhos. Eles podem ajudar criando situações onde se precise construir juntos. Nós temos que aprender a negociar e navegar nos cenários sociais. Podem ajudar dando habilidades para aprender como aprender.” Confira neste trecho da entrevista:

A escola é um apoio, não um vilão da aceleração da infância

Para professores e educadores é um desafio conciliar o anseio dos pais e a necessidade das crianças. Eu li em um artigo um depoimento de um professor que dizia algo como “temos que incentivar as crianças a brincar. Mas não o brincar pelo brincar, mas o brincar com objetivo”.

Confesso que me entristeceu perceber que brincar precisa ser justificado com um propósito para ser valorizado. Já Hish-pasek tem outra concepção de como instituir a brincadeira nas salas de aula.

Mesmo em etapas além da Educação Infantil.

Depois de tanto conteúdo que merece uma reflexão da nossa parte, te convido a participar do Webinário “Aceleração da Infância – porque tenho que me preocupar com isso”, em que converso com o pediatra Daniel Becker sobre o tema.

E todos que sempre acompanham nossas entrevistas com especialistas, sempre pedimos para que completem a frase: “Brincar é…”

Para Kathy Hish-pasek “Brincar é divertido e inspirador. Toda vez eu aprendo algo novo sobre as pessoas com quem brinco e as coisas que me envolvo. E brincar funciona! É avassalador, continua crescendo, te leva para lugares onde você nunca esteve antes. E nesse sentido, é inspirador. Cientistas brincam todo dia.”

O brincar como fonte de aprendizagem – pesquisas

**** Os sabotadores da infância

***STAVISKI, Gilmar; SURDI, Aguinaldo and KUNZ, Elenor. Sem tempo de ser criança: a pressa no contexto da educação de crianças e implicações nas aulas de educação física. Rev. Bras. Ciênc. Esporte [online]. 2013, vol.35, n.1 [cited 2020-09-22], pp.113-128. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-32892013000100010&lng=en&nrm=iso>. ISSN 2179-3255.

** Em entrevista para O site Hoje em Dia. https://www.hojeemdia.com.br/plural/inf%C3%A2ncia-desacelerada-pais-adotam-ideia-do-slow-parenting-e-educam-filhos-no-ritmo-deles-1.576774 – Acessado em 22/9/2020.

Excesso de obrigações na infância pode prejudicar o desenvolvimento – Zero Hora. Acessado em 19/11/2020 às 11 horas.

*KATHRYN HIRSH-PASEK
is the Stanley and Debra Lefkowitz Faculty Fellow in Psychology at Temple University and is a Senior Fellow at the Brookings Institution. Director of Temple University’s Infant Language Laboratory, Kathy is the recipient of the Simms/Mann Whole Child Award, the AERA Outstanding Public Communication for Education Research Award, American Psychological Association’s Bronfenbrenner Award for Lifetime Contribution to Developmental Psychology in the Service of Science and Society, the American Psychological Association’s Award for Distinguished Service to Psychological Science, the American Psychological Society’s James McKeen Cattell Award for “a lifetime of outstanding contributions to applied psychological research,” the Society for Research in Child Development Distinguished Scientific Contributions to Child Development Award, and the Temple University Great Teacher Award and University Eberman Research Award. She was a finalist for 2013 Best Professor of the year for the American Academy of Education Arts and Sciences Bammy Awards.

Kathy received her bachelor’s degree from the University of Pittsburgh and Ph.D. from the University of Pennsylvania. Her research in the areas of early education, language, playful learning and spatial development has been funded by the National Science Foundation, the National Institutes of Health and Human Development, and the Institute of Education Sciences resulting in 13 books and over 200 publications. She is a Fellow of the American Psychological Association and the American Psychological Society, elected a Fellow of the Cognitive Science Society for “individuals whose research has exhibited sustained excellence and had sustained impact on the Cognitive Science community” and was elected a fellow of AERA. She was an Associate Editor of Child Development, and is the Past President and past treasurer of the International Association for Infant Studies. Her book, Einstein Never used Flashcards won the prestigious Books for Better Life Award as the best psychology book in 2003. Her newest book, Becoming Brilliant: What Science tells us about raising successful children (2016) was on the NYTimes Best Seller List in both education and parenting.

Kathy has a strong interest in bridging the gap between research and application. To that end, she was an investigator on the NICHD Study of Early Child Care, is on the Advisory Board of the Children’s Museums in San Francisco and Boston, and Jumpstart, Disney Junior and Noggin (Nickelodeon). She worked on the language and literacy team for the development of the California Preschool Curriculum, is on the Core Team for the LEGO Research Network, a member of the Steering Committee of the Latin American School for Educational and Cognitive Neuroscience and is on the advisory board for the National Center on Early Child Development, that advises Head Start. She was also a founder of the prestigious Learning Sciences Exchange Fellowship, an interdisciplinary program for mid-career scholars. founder and organizer of the Ultimate Block Party (ultimateblockparty.com) and a founder of Playful Learning Landscapes. Kathy has been a spokesperson on early childhood development for national media like the NYTimes and NPR. She tweets at KathyandRo1.

(Em português – tradução Linguee.com):

Kathy Hish-pasek é Fellow em Psicologia na Universidade Temple e é Senior Fellow na Brookings Institution. Diretora do Laboratório de Linguagem Infantil da Temple University, Kathy é a ganhadora do Prêmio Simms/Mann Whole Child, do Prêmio AERA de Comunicação Pública Excepcional para Pesquisa em Educação, do Prêmio Bronfenbrenner da Associação Psicológica Americana para Contribuição Vitalícia em Psicologia do Desenvolvimento ao Serviço da Ciência e Sociedade, do Prêmio da Associação Psicológica Americana para Serviço Distinto à Ciência Psicológica, o Prêmio James McKeen Cattell da Sociedade Americana de Psicologia para “uma vida inteira de contribuições extraordinárias à pesquisa psicológica aplicada”, o Prêmio da Sociedade para Pesquisa em Desenvolvimento Infantil Contribuições Científicas Distintas para o Desenvolvimento Infantil, e o Prêmio Grande Professor da Temple University e o Prêmio de Pesquisa da University Eberman. Ela foi finalista do Prêmio Bammy 2013 de Melhor Professor do Ano para a Academia Americana de Artes e Ciências da Educação.

Kathy recebeu seu bacharelado da Universidade de Pittsburgh e seu Ph.D. da Universidade da Pensilvânia. Suas pesquisas nas áreas de educação precoce, língua, aprendizagem lúdica e desenvolvimento espacial foram financiadas pela National Science Foundation, pelos Institutos Nacionais de Saúde e Desenvolvimento Humano e pelo Instituto de Ciências da Educação, resultando em 13 livros e mais de 200 publicações. Ela é membro da Associação Americana de Psicologia e da Sociedade Americana de Psicologia, eleita membro da Sociedade de Ciências Cognitivas para “indivíduos cuja pesquisa demonstrou excelência sustentada e teve impacto sustentado na comunidade de Ciências Cognitivas” e foi eleita membro da AERA. Ela foi editora associada da Child Development, e é ex-presidente e ex- tesoureira da Associação Internacional de Estudos Infantis. Seu livro, “Einstein Teve Tempo para Brincar” ganhou o prestigioso Prêmio Books for Better Life como o melhor livro de psicologia em 2003. Seu mais novo livro, “Becoming Brilliant” (Tornando-se brilhante): What Science tell us about raising successful children (2016) estava na NYTimes Best Seller List tanto na educação quanto na parentalidade.

Kathy tem um forte interesse em preencher a lacuna entre a pesquisa e a aplicação. Para isso, ela foi investigadora do Estudo NICHD de Cuidados Infantis Primários, está no Conselho Consultivo dos Museus Infantis em São Francisco e Boston, e Jumpstart, Disney Junior e Noggin (Nickelodeon). Ela trabalhou na equipe de língua e alfabetização para o desenvolvimento do Currículo da Pré-Escola da Califórnia, faz parte da Equipe Central da Rede de Pesquisa LEGO, é membro do Comitê Diretor da Escola Latino-Americana de Neurociência Educacional e Cognitiva e faz parte do Conselho Consultivo do Centro Nacional para o Desenvolvimento da Primeira Infância, que aconselha a Head Start. Foi também fundadora da prestigiosa Bolsa de Intercâmbio em Ciências da Aprendizagem, um programa interdisciplinar para bolsistas de meia-carreira. fundadora e organizadora do Ultimate Block Party (ultimateblockparty.com) e fundadora da Playful Learning Landscapes. Kathy tem sido porta-voz do desenvolvimento da primeira infância para a mídia nacional como o NYTimes e o NPR. Sua conta no Twitter, onde coloca suas ideias é KathyandRo1.

Traduzido com a versão gratuita do tradutor – www.DeepL.com/Translator

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