Para começar, se você prefere assistir à entrevista que fiz com o Dr. Guilherme Polanczyk*, é só clicar no vídeo abaixo.

Mas o papo foi tão legal, que ler e ter o conteúdo aqui no site era fundamental. Então, boa leitura. Eu tenho certeza que as informações do Dr. Polanczyk ajudam a entender bastante as emoções dos nossos filhos.

Tempojunto: Como surgem as emoções nas crianças?

Dr. Polanczyk

É um processo super complexo. Nós temos um cérebro que vai se desenvolvendo, orquestrado pelos genes. E à medida que esse cérebro vai se desenvolvendo, que os genes vão se ligando e desligando e vão dando sinais para que diferentes processos aconteçam, as habilidades vão emergindo.

A partir daí, nessa interação com o ambiente e, principalmente no primeiro ano, com a mãe ou outra figura de ligação maior, é que as habilidades emocionais vão se desenvolvendo.

Mas é importante ter sempre em mente que é na interação das questões genéticas, mais na interação com o meio, mais na interação com o potencial biológica daquela criança, que aquelas habilidades vão se formando.

Tempojunto: para que servem as emoções?

Dr. Polanczyk

As emoções primeiro precisam ser percebidas. Muitas vezes essa percepção é falha. No momento em que eventualmente eu poderia ter tido uma interação com meu filho que poderia despertar algo, eu não percebi aquela interação, eu não percebi o que vinha acontecendo.

Esperamos que as emoções tragam à criança e adolescente informações sobre como navegar nas ondas turbulentas das relações humanas

Dr. Polanczyk

Mas no momento em que eu tenho a emoção, eu preciso perceber as emoções. Então, uma vez percebendo as emoções é preciso processá-las e para isso existe a necessidade de algum tipo de controle, de regulação sobre elas. Porque muitas vezes se não existe isso, temos um comportamento inadequado.

Por exemplo, quando ficamos com raiva. Nas crianças pequenininhas, que ainda não tem maturidade para conduzir esta emoção, isso logo leva ao choro ou eventualmente a criança sai correndo, tem algum comportamento mais disruptivo.

As crianças pequenas não têm a capacidade de nomear emoções, de saber quais são as suas emoções. Isso é um processo que os pais precisam apoiar. Mostrar o que é medo, o que é tristeza, o que é raiva, felicidade.

E nós esperamos que ao final desse processo, se é que esse processo tem fim, mas que essas emoções possam dar informações para criança, para o adolescente, para o adulto sobre o que está acontecendo no ambiente, sobre o seu mundo interno. E aí ele possa navegar melhor nessas ondas turbulentas que são as relações humanas.

Tempojunto: de que forma a brincadeira contribui para este processo?

Dr. Polanczyk

Sem dúvida brincadeira é o espaço onde tudo isso acontece. É a possibilidade de colocar as emoções, de colocar as sensações, de colocar as relações, as experiências que aconteceram de forma concreta. É um exercício muito potente para que todas essas habilidades possam ser desenvolvidas.

Tempojunto: Como os pais podem agir na brincadeira?

Dr. Polanczyk

De diferentes formas. Mas é primeiro poder colocar em palavras o que a gente está percebendo naquela criança. “Olha só, eu estou vendo que você está ficando com raiva toda vez que você perde”. E aí é explicar: perder faz parte do jogo; o papai e a mamãe já perderam muitas vezes.

Mostrar que o adulto ganhou o jogo porque já treinou mais vezes.

Claro que também se a criança só perde a brincadeira acaba em algum momento ficando muito frustrante. Temos que escolher a brincadeira conforme a capacidade da criança em brincar também.

Os modelos que apresentarmos às crianças é o que elas vão seguir na vida

Outro ponto é dizer pra criança como ela lida com a raiva: “olha só. Eu estou vendo que você está super triste, esta super brava. Vamos respirar, vamos tomar uma agua. Quando eu fico com raiva, eu faço tais e tais coisas”. Então, ofereça alternativas e modelos para a criança seguir.

Dr. Polanczyk

Com a criança, o que a gente não pode de forma nenhuma é também ficar com raiva, é também gritar, é também dizer “você não pode fazer isso”, ou, eventualmente, ter comportamentos mais coercitivos, mais abusivos.

Porque o que nós estamos fazendo é dando um modelo de que é realmente assim que a gente lida com as emoções e frustrações. Que é realmente gritando, realmente chorando, realmente ficando com raiva. E não é isso que nós queremos ensinar para as crianças, não é?

Tempojunto: dr. Guilherme Polanczyk, a raiva é a emoção que mais precisa de condução?

Dr. Polanczyk

As emoções precisam ser reguladas de uma forma geral. Realmente a raiva é aquela que mais leva a comportamentos que chamam atenção; problemáticos, que geram sofrimentos quando a raiva é muito grande.
Então é por isso que a gente acaba falando muito da raiva. Mas a alegria, por exemplo, também pode levar a criança a ficar mais impulsiva, mais agitada. Eventualmente fazer alguma coisa que não faz sentido ou vivenciar aquela situação de um jeito tão extraordinário que depois parece que as coisas são todas sem graça porque foi tão extraordinário.

Portanto, no desenvolvimento que acontece de uma forma natural, que acontece de uma forma típica, no geral essas habilidades de entendimento e expressão das emoções estão mais ou menos equilibradas.

Entretanto, existem situações em que há uma disparidade entre o desenvolvimento das multiplas habilidades do ser humano. POr exemplo, as habilidades acadêmicas muito desenvolvidas e as emocionais nem tanto. Então uma criança que só estuda; uma criança e um adolescente que só estão preocupados com as notas, terão menos experiências, menos oportunidades de sentir, de processar as emoções, de se relacionar.

Nem só emoções, nem só estudo. Crianças só preocupadas com notas, não vivem

Dr. Polanczyk

Existem muitos estudos que mostram o que pode acontecer com as crianças e adolescentes que têm prejuízos em algumas habilidades socioemocionais. Alguns estudos, por exemplo, estudam as habilidades de autocontrole.

Autocontrole é um conceito também amplo, mas que fala sobre a capacidade de controlar o seu comportamento, controlar suas emoções frente a situações que evocam. Por exemplo, provocações, como a criança querer muito alguma coisa, e não poder ter ter naquele momento.

As habilidades de auto regulação, autocontrole vão ser importantes para essas situações.

E muitos estudos, já da década de 70, 80, acompanhando crianças à medida que elas vão se tornando adolescentes e adultos, mostraram que essas habilidades na infância predizem, ou seja, elas antecipam quem vão ser aquelas pessoas.

Quem estará mais propenso a ter problemas no futuro e problemas financeiros, problemas emocionais, problemas educacionais. E aquelas que terão mais habilidades e mais sucesso no futuro.

Além disso, crianças com boa capacidade de auto regulação tem maior chance de um melhor desenvolvimento acadêmico, de se tornarem adultos sem problemas emocionais. Com uma boa qualificação e uma boa colocação no mercado do trabalho de trabalho. E com relacionamentos estáveis. Então, são habilidades muito importantes.

Para Guilherme Polanczyk, habilidades cognitivas, físicas e emocionais caminham juntas

Tempojunto: é possível aos pais perceberem transtornos no desenvolvimento da habilidade emocional dos filhos?

Dr. Polanczyk

É importante ter em mente como é que acontece para que uma criança, um adolescente, mesmo um adulto desenvolva um transtorno. De uma forma muito simplista vamos pensar que essa suscetibilidade genética a ter um transtorno coloca a pessoa mais ou menos distante de um penhasco.

Então, dependendo do ambiente, dependendo da força negativa desse ambiente, esse indivíduo pode cair no penhasco, pode desenvolver o transtorno mental. Ao contrário, um ambiente fortemente acolhedor e positivo, impede que o indivíduo caminhe para perto do penhasco, ao longo da vida.

Mas não temos como saber ao longo da vida quando é que, exatamente, o momento em que um transtorno se desenvolve. Então é importante ficar muito atento a esse processo.

Os pais podem perceber se a criança passa a ter um estresse muito longo, ou um sofrimento persistente. Aí é muito importante buscar ajuda.

Outro sinal de alerta são pensamentos frequentes sobre morte, suicídio, comportamentos auto-lesivos. Uma tristeza que não faz sentido, que impede o funcionamento diário. Cansaço e alterações de sono persistentes.

Quando um momento de raiva seja tão intenso a ponto da criança conseguir brincar nunca. Que só prefiram brincar sozinhos, na fase de brincar com outras crianças. É sempre importante dizer que a gente não precisa esperar para buscar ajuda.

Tempojunto: dr. Guilherme Polanczyk, brincar é…

Dr. Polanczyk

Para as crianças brincar é viver, brincar é se expressar, brincar é se divertir.

E se você quer ter um guia completo para ajudar as crianças a entender, expressar e conduzir as emoções, clique aqui e baixe nossas ferramentas.

* Dr. Guilherme Polanczyk é psiquiatra da Infância e Adolescência, dedicado à produzir conhecimento em transtornos do neurodesenvolvimento.