Importância do brincar: um vínculo para toda a vida


Mensalmente a gente traz aqui no blog uma entrevista com especialistas infantis para contar para a gente sobre os vários aspectos – físicos, mentais, emocionais e sociais – que fazem da brincadeira algo tão importante para as crianças. Eu (a Patcamargo) é quem conduzo estas entrevistas e, confesso, algumas me chamam mais a atenção. Esta é uma delas. Conversando com o pediatra e pesquisador Álvaro Madeiro Leite eu de encantei com a força que o vínculo (também chamado de apego) tem no desenvolvimento da criança. Tenho certeza que você vai entender o que eu digo ao ler esta entrevista. Eu terminei a conversa morrendo de vontade de abraçar, beijar e entender meus filhos. Depois me conta como foi com você.

A gente fala todas as vezes que apresenta o Tempojunto que o brincar fortalece o vínculo entre pais e filhos. Então, sim, claro que sempre acreditamos na importância do educar a partir de uma relação de vínculo, de apego. O que está longe de mimimis ou de fazer as vontades das crianças, sem limites. Isto gera crianças mimadas, adolescentes egoístas e adultos inseguros e incapazes de entender o outro e o mundo. O educar com apego pretende oferecer para a sociedade crianças independentes e seguras, adolescentes conscientes e adultos capazes de entender o mundo e fazê-lo melhor.

A importância do brincar- um vínculo para toda a vida - alvaro leite 2

O vínculo positivo (cientificamente chamado de apego seguro) é uma relação tão fundamental para o bebê quanto alimentar-se ou respirar. Porque os seres humanos são os animais mais dependentes de todos para sobreviver no início da vida. Em outra palavras, o bebê precisa de alguém adulto para cuidar dele, pois ele não é capaz de cuidar-se sozinho. E esta situação se prolonga até, pelo menos o início da adolescência (considerando as facetas biológicas, mentais e sociais). O grande estudioso do assunto, Jonh Bowlby descobriu que o ser humano nasce com a capacidade de encantar as pessoas. Sabia que a carinha fofa, o balbuciar, a capacidade de sorrir dos bebês são fundamentais na delicada atividade de conquista que ele precisa fazer com o adulto (ou os adultos) mais próximo, para sua própria sobrevivência, que esta diretamente ligada a encontrar alguém para cuidar deste bebê.

Por isso, logo no primeiro atendimento a um casal grávido, Álvaro ele costuma fazer perguntas que posam dar pistas sobre o quando o casal está já vinculado ao filho. Veja:

O especialista explica melhor neste trecho da entrevista o termo vínculo e apego e como ele se forma na relação entre pais e filhos.

11 Brincadeiras para estimular o sexto e sétimo sentidos das crianças - rodando com o bebe

É possível reconstruir o vínculo em outras etapas da vida da criança

Você consegue imaginar o estrago que a falta de vínculo pode fazer na vida do recém-nascido e da criança? É não é mole. Eu fiquei muito triste quando me deparei com esta possibilidade. E o desgostar de um filho pode acontecer em qualquer esfera da sociedade. Você conhece alguma caso assim? Mas esse vínculo é possível de ser construído ou reconstruído em outras etapas da vida das crianças.

O especialista confirma que o processo de amor pelo filho necessariamente não é imediato, mas construído dia a dia. A razão é que temos “três filhos” antes do nascimento de um: um filho que idealizamos desde a infância (quando brincamos de mamãe e papai, quando inventamos nomes para nossos “bebês” de imaginação); outro filho que vamos concebendo durante a gravidez (a partir de imagens do ultrassom, ou do comportamento do feto na barriga) e o filho real. Até estas três imagens entrarem em sintonia, pode levar um tempo.

E mesmo que a realidade da relação inicial entre pais e filhos seja sem apego, ou melhor, com apego ambivalente, evitante ou desorganizado (já explico estas classificações mais abaixo) é possível retomar este vinculo com a criança. “A neurociência nos traz atualmente o conceito da plasticidade do cérebro”, explica Álvaro. “E é esta capacidade de adaptação que permite reconstruir bases desfeitas ou não formadas”. Mas não espere seu filho chegar a adolescência para querer criar um vínculo com ele, tá?

Neste outro trecho, Álvaro resume bem o papel dos pais que se relacionam com seus filhos com apego seguro:

Eu faço o que fizeram comigo

Você já parou para pensar como, mesmo que racionalmente pense o contrário, acaba reproduzindo com seus filhos muitas coisas iguais a que seus pais (ou avós) faziam com você? Houve uma geração de pais que criou filhos tiranos, extremamente mimados, porque não sabiam dar limites. Esta pais, de uma forma geral, tiveram uma educação muito rígida e, na ânsia de não reproduzir o mesmo com os filhos, erraram a mão. O que os especialistas dizem é que inevitavelmente a forma como nós fomos educados, as experiências positivas e negativas de apego que tivemos reflete diretamente na educação dos nossos filhos.

Experiências precoces muito difíceis em que a pessoa apresenta uma desestrutura da vida mental (comportamento, sentimentos, emoções) no cérebro, provavelmente serão carregados para toda a vida. A conseqüência é a dificuldade de cuidar do filho com sensibilidade e disponibilidade emocional, porque a mãe ou pai não têm um registro de serem cuidados quando eram bebês e crianças. E o comportamento acaba passando “de pai para filho”, sendo presente em gerações de bebês da mesma família. Mas este círculo “vicioso” pode ser quebrado.

Há como vencer esta desestrutura, mas a partir da ajuda e interferência de apoio externo, seja de pessoas próximas, ou profissionais especializados e instituições, que podem ajudar o indivíduo a reconstruir uma estrutura mental saudável. “Dependendo das características de personalidade a pessoa pode aproveitar ao máximo este vínculo afetivo tardio dado a ele, conseguindo enfrentar e superar estas adversidades”. Ouça como:

“Quando a família não consegue criar ou rompem o apego no início da vida, e esta família demonstra isso (também conhecido como negligência) é dever das instituições olhar para esta família, ouví-la e procurar atendê-la porque já está comprovado que o apego pode ser construído ou reconstruído a todo momento”, afirma o especialista. Este é o trabalho feito no Instituto da Primeira Infância (Iprede), em Fortaleza (CE), onde Álvaro é pesquisador e consultor.

A brincadeira como veículo do apego seguro

Álvaro explica que a brincadeira tem dois papéis importantes na relação de apego entre pais e filhos. Primeiro porque o brincar é um dos veículos de comunicação da criança com o adulto, e quando se mostra disponível para a brincadeira, o adulto “diz” à criança que ele se importa, que ele está atento a ela, fortalecendo os vínculos positivos. Ouça:

Uma segunda função da brincadeira é auxiliar pediatras, psicólogos e especialistas a entender a relação de vínculo afetivo que há entre um adulto e um bebê ou uma criança que estejam atendendo e observando. Bem como o grau de segurança, amor próprio e autonomia da criança. Por exemplo, o tempo que a criança “se solta” dos pais num ambiente estranho para brincar, se ela se volta para os pais no sentido de garantir a aprovação deles ao que ela está fazendo/brincando e a qualidade da brincadeira (se é saudável, construtiva ou se é muito desorganizada, desestruturada).

E para quê, afinal, medir o apego? O próprio Álvaro explica a importância:

Daí que eu acabei a entrevista morrendo de vontade de abraçar e beijar loucamente meus filhos rsrsr. Se você se interessou sobre este assunto e como surgiu a teoria do apego, tem algumas explicações e dicas aqui. Além da classificação dos tipos de apego.

Jonh Bowlby e Mary Ainsworth

O psiquiatra e psicanalista inglês John Bowlby foi o primeiro, na década de 50, que descreveu a importância do vínculo entre o adulto e o bebê ou a criança para o desenvolvimento saudável do ser humano. Ele partiu seus estudos de crianças das mais diversas idades que passaram a viver em orfanatos no pós-guerra. O princípio da criação com apego, das relações afetivas desenvolvidas pelo bebê foram pesquisadas por Bowlby. Na sua esteira Mary Ainsworth foi uma psicóloga do Canadá que teve também um papel importante para uma melhor compreensão do conceito de apego. Esta psicóloga desenhou uma experiência clássica que era usada para avaliar a forma como as crianças dos doze aos dezoito meses se ligavam com as suas mães. O experimento se chama A situação estranha”: numa sala com brinquedos, mãe e filho são observados. Depois, em várias situações a mãe sai da sala e uma pessoa estranha à criança entra em cena, ora interagindo positivamente com ela, ora não. Em seguida, a mãe retorna.
O que mais interessa nesta avaliação não é a reação da criança quando a mãe sai, mas quando ela volta. Este experimento deu origem à atual classificação dos tipos de apego.

Apego seguro (ocorre em aproximadamente 2/3 das famílias) – nestes casos a criança fica visivelmente perturbada quando a mãe sai da sala e procura-a no seu regresso, deixando-se confortar por esta quando ela volta. Quando a mãe está presente, as crianças com apego seguro usam-na como a sua base de segurança para explorar o ambiente. Quando observamos este tipo de interacção, por exemplo, num parque infantil, é normal que a criança se afaste da mãe um pouco e depois volte de novo ao pé desta de tempos a tempos ou que, pelo menos, vá confirmando com o olhar se esta ainda está por perto. Se a criança se magoar ou encontrar algum tipo de obstáculo, nestes casos, é natural que volte para o pé da mãe deixando que esta a conforte. Na experiência do estranho estas crianças mostravam evitar o estranho quando estavam sozinhas mas podiam interagir com ele, mesmo que com algum receio, se a mãe estivesse presente. Quando ficavam sozinhas na sala e o estranho entrava, estas crianças nunca se deixavam confortar por ele mostrando uma preferência bem clara pelas suas mães.

Apego ambivalente – nestes casos a criança também ficava perturbada quando a mãe saìa da sala e procurava-a quando esta voltava mas, ao mesmo tempo, não se deixava confortar e podia mesmo recusar a proximidade física com a mãe. Nestes casos as crianças mostravam sempre algum receio do estranho e eram crianças que choravam mais e pareciam menos livres para explorar o ambiente á sua volta. Estes são casos em que há geralmente um nível mais elevado de ansiedade principalmente em situações novas.

Apego evitante – Estas crianças não mostrava nenhuma ansiedade quando a mãe saìa da sala e também não se mostravam receosas do estranho. Quando a mãe regressava também não havia grandes manifestações de alívio por parte da criança e depois de terem ficado sozinhas, as crianças deste grupo deixavam-se confortar tão bem pelo estranho como pela sua mãe.

Apego desorganizado – este tipo de vínculo é o que se forma normalmente em situações de maus tratos que colocam a criança num dilema que não tem solução: a mesma pessoa que deveria ser uma fonte de conforto e segurança é a que a coloca em situações de perigo de sofrimento e por isso, criança fica sem saber o que esperar daquela relação, ao mesmo tempo que deixa também de confiar nos seus próprios instintos. Uma criança que cresce neste tipo de ambiente terá sempre uma tendência para se manter hipervigilante, procurando nos outros sinais que possam prepará-la para lidar com o perigo iminente. Para além deste estado de hipervigilância constante, que leva a um estado de tensão quase permanente, estas crianças também pode apresentar alguma dificuldade no controlo dos impulsos (uma vez que nunca ninguém lhes mostrou como fazê-lo) acabando, mais tarde, por se tornarem elas próprias nos agressores.

Alguns links sobre o assunto:

Parentalidade

Teoria do Apego – PUC Rio

Crítica à teoria de apego

*Álvaro Jorge Medeiro Leite é Professor Titular da UFC e Coordenador Técnico-Científico do Instituto da Primeira Infância – IPREDE. Possui Graduação em Medicina pela Universidade Federal de Alagoas (1982), Mestrado em Epidemiologia – Modalidade Epidemiologia Clínica pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (1996) e Doutorado em Pediatria pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (2000). Atualmente é Professor Titular da Universidade Federal do Ceará e Coordenador Técnico-Científico do Instituto da Primeira Infância – IPREDE. Dedica-se a estudar o campo das Humanidades Médicas, o que significa um interesse amplo pelos conteúdos humanísticos que devem estar presentes nas estratégias de ensino- aprendizagem e nas conexões existentes entre o método clínico centrado no paciente e o ensino das habilidades de comunicação.

4 Comentários

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  1. 1
    Daniela

    Maravilhosa a entrevista!!! Importantes conhecimentos para profissionais da área da saúde!! Traz na teoria o que pudemos vivenciar enquanto mães suficientemente boas, numa linguagem de Winnicott.

  2. 2
    Revivendo brincadeiras da infância com seus filhos | Piccolo Universe

    […] Ultimamente temos problematizado a brincadeira: não sabemos exatamente qual o seu espaço numa realidade em que pais e mães não têm tempo para brincar com os pequenos, que, além de terem também uma agenda superlotada, acabam gastando mais horas na frente da televisão ou com um tablet na mão do que ao ar livre. Partindo do pressuposto de que temos consciência dos efeitos dessa situação, independentemente da sua realidade como pai ou mãe – entre o cansaço das noites mal dormidas, afazeres domésticos e a lida com mil demandas de trabalho sem deixar de dar atenção à cria – você já deve ter se permitido ter um ou mais momentos de sua antiga brincadeira favorita com seu filho ou filha. Tanto melhor: compartilhar com as crianças suas alegrias do passado pode ser um encontro revelador entre duas crianças, elas e a que ainda reside em você. Esse ponto de encontro, quando suas memórias afloram para ajudar a construir as memórias dos pequenos, se traduz, afinal, numa identidade. Melhor dizendo: promove um vínculo ainda mais enraizado em família. […]

  3. 4
    'Por que brincar é importante' na opinião de 7 especialistas

    […] Uma segunda função da brincadeira é auxiliar pediatras, psicólogos e especialistas a entender a relação de vínculo afetivo que há entre um adulto e um bebê ou uma criança que estejam atendendo e observando. Bem como o grau de segurança, amor próprio e autonomia da criança. Por exemplo, o tempo que a criança “se solta” dos pais num ambiente estranho para brincar, se ela se volta para os pais no sentido de garantir a aprovação deles ao que ela está fazendo/brincando e a qualidade da brincadeira (se é saudável, construtiva ou se é muito desorganizada, desestruturada). Leia a entrevista completa aqui. […]

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