A especialista Tânia Ramos Fortuna desvenda afinal os segredos do brinquedo


Quando eu conheci a professora Tânia Ramos Fortuna* na Abrin (Feira da Associação de Brinquedos) deste ano me perguntei como demorei tanto para descobri-la? Afinal, além de um currículo invejável na questão do desenvolvimento infantil, Tânia escreveu vários artigos científicos sobre a brincadeira e o valor do brinquedo. Por isso estou super feliz em tê-la como entrevistada da coluna A Importância do Brincar. Aliás, você já conhece este nosso espaço?

Para falar sobre brincadeiras, eu (a Patcamargo) e a Patricia Marinho estudamos bastante, tanto sobre o brincar, quanto sobre desenvolvimento infantil. A ponto de sermos reconhecidas como educadoras! Parte destes estudos se reflete nas entrevistas que fazemos com especialistas de várias áreas. De pesquisadores a pediatras, de pedagogos, psicólogos a profissionais da educação. De políticos a escritores e entidades como a Unicef. São vários os que nos deram o prazer da sua palavra aqui no blog, confirmando a importância da brincadeira para a criança.

A especialista Tânia Ramos Fortuna desvenda afinal os segredos do brinquedo - pout pourri de entrevistados

Você pode acessar todas as entrevistas no blog. Mas vamos voltar ao nosso assunto de hoje que é o brinquedo. Endeusado, rebaixado, classificado de várias formas, o brinquedo já figurou como vilão nas relações da criança com a vida. Mas ele também já foi considerado essencial neste cenário. Muito comercial, feito em casa, com ou sem personagens? Afinal, que apito toca o brinquedo e qual a relação que devemos ter com ele?

A especialista Tânia Ramos Fortuna desvenda afinal os segredos do brinquedo - foto da Tania Fortuna

“Um brinquedo, uma brincadeira, um jogo, é tanto melhor quanto mais engendra mistério e oportuniza a ação (física ou mental). Assim, as condições em que é possível brincar são aquelas em que o indivíduo que brinca é sujeito da brincadeira, e não mero espectador, passivo, como também é provocado, desafiado”, explica Tânia ao iniciar nossa entrevista. Em outras palavras, brinquedo é tudo aquilo que provoca a ação e interação da criança. A rigor, nenhum brinquedo ou jogo pode ter este nome sem ação de quem brinca, ou seja sem a brincadeira acontecer efetivamente. “Se não acontece a interação, está condenado a ser apenas um objeto qualquer enquanto não for jogado”, complementa. O que faz um brinquedo ser brinquedo é a ação de quem brinca. Em outras palavras, o brinquedo é aquilo com que se brinca. Ou seja, ele só é brinquedo quando permite que as pessoas interajam ativamente com ele, atuem nele. “Brinquedo que serve para olhar, assistir ou só observar, não são brinquedos”, afirma Tânia. Imagino que nós pais às vezes confundamos isso, não é. Veja como Tânia explica melhor ainda com exemplos do nosso dia a dia.

Tânia pondera que talvez por isso as crianças, hoje, prefiram roupas aos brinquedos: muitos dos brinquedos oferecidos pela indústria cultural acentuam o consumo e a posse, e não o brincar propriamente dito. “Na melhor das hipóteses, exibem os brinquedos como exibem as roupas e enfeites que vestem, mas não brincam com eles. Importa ter o brinquedo, mas não brincar com ele, até porque não sabem como fazê-lo, já que esta mesma indústria cultural enfatiza o consumo e não a criação”, conta. Em um de seus artigos, chamado Vida e Morte do Brincar, a especialista pontua: Como diz Barthes (apud Porto 1998): “a criança só pode assumir o papel do proprietário, do utente, e nunca do criador; ela não inventa o mundo, utiliza-o; os adultos preparam-lhe gestos sem aventura, sem espanto, sem alegria” (p.176). Sua oferta e elaboração são responsáveis por isto: “atualmente, os mais vendidos são aqueles veiculados pela televisão, meio que exige que o brinquedo tenha determinadas características: deve ser comunicável, ou seja, explicável por breves imagens” (Porto, id., p.177). O meio que o vende – a visualidade da embalagem ou a propaganda de televisão – impõe seu conteúdo, limitando-o.

Quero só brinquedo educativo em casa para meu filho

A gente fala o tempo todo aqui no blog sobre a importância da brincadeira e, eu confesso, amo quando um entrevistado me faz pensar. “Brincar tem que ser para brincar. Não tem que ter uma razão educativa”, afirmou Tânia. E volta e meia a gente cai aqui no Tempojunto explicando as possibilidades de desenvolvimento cognitivo e de habilidades das crianças. Mas a gente fala isso para você saber que isso existe. Então, por favor, não brinquem PARA desenvolver seus filhos. Isso destroi a brincadeira. Brinquem por brincar e aproveitem os benefícios de desenvolvimento cognitivo, físico e social do segundo plano.

Ampliando mais este assunto perguntei para Tânia qual a validade real dos brinquedos chamados educativos. Vamos combinar que eu, e talvez você, ficamos mais confortáveis ao dizer que compramos para nossos filhos brinquedos educativos, não é mesmo? Dá um alívio na consciência que em meio a tantos outros brinquedos “comerciais”, a gente também consiga introduzir alguns destes educativos na vida dos filhos. Bom, talvez não seja bem assim. Mas sem estresse, porque a Tânia deixa bem mais claro neste trecho da entrevista uma classificação mais tranquila disso tudo.

“De outra parte, brinquedos e jogos podem experimentar uma existência perversa. Podem estar ao mesmo tempo muito perto e muito longe. É o que se vê em salas de aula ou quartos infantis cuja visualidade lúdica é excessiva, chegando ao ponto de ser invasiva, distanciando as crianças do brincar”, e aqui começamos outro aspecto interessante do brinquedo. Com tantas ofertas de brinquedos e situações lúdicas as crianças não conseguem assimilar as propostas aí contidas, e acabam não interagindo com este material. Isso mesmo, muito pode ser demais também! Quem não se lembra de um momento em que a embalagem do brinquedo que fez mais sucesso que o próprio? Acontece que esta embalagem dava mais lugar à ação e as possibilidades de brincar, explorar e descobrir eram mais atraentes que o próprio brinquedo. E como escolher afinal os brinquedos para meu filho? ATENÇÃO, mostre esta parte da entrevista para vovós, tios, padrinhos. Vai te ajudar muito rsrs.

Outra coisa que sempre tem aqui no Tempojunto é o brinquedo feito em casa. Mas será que ele se destaca dentre os outros? Bom é a diversidade, explica Tânia.

A nossa inveja de brincar

No trecho da entrevista abaixo, Tânia explica com muita propriedade porque os aplicativos eletrônicos são tão brinquedo como qualquer outra coisa e o que faz dele ser ou não um elemento brincante. Talvez você já tenha ouvido falar disso ou até lido aqui no blog. Mas a entrevistada vai além, quando ela traz um fato novo para esta discussão: a “inveja” que nós temos dos brinquedos dos nossos filhos. E desse sentimento, pode surgir a aversão total a tudo o que é diferente “do brinquedo da minha época” por um lado e por outro o “meu filho terá tuuuudo que eu não tive”. Você já reparou como há bonecas enormes para as crianças? Ou motocas e bugguies que são verdadeiros carros motorizados oferecidos a crianças de 3, 4 6 anos? Será que estes brinquedos são para seus filhos ou para você? Melhor ver o vídeo.

O ambiente de brincar vem antes dos brinquedos

Sabe o quarto Montessori? Já ouviu falar dele? Virou moda criarmos quartos montessorianos para as crianças. Entretanto, a “moda” acaba por perverter um pouco a filosofia original. Neste trecho, Tânia fala sobre a importância de pensarmos no ambiente de brincar antes mesmo de comprarmos os brinquedos. Ela conta sobre uma experiência feita pelo arquiteto francês André Legendre que acabou revelando que o centro do quarto livre e todos os brinquedos ao alcance pode ser uma opção desinteressante. Eu, particularmente, gostei muito do que ela chama de ambiente semi-estruturado, que funcionam tanto nos ambientes de brincar, quanto nas escolas. Uma volta interessante ao fundamento Montessori. Recomendo ouvir este trecho. Confesso que depois disso eu mudei um pouco a organização do quarto dos meus filhos, deixando mais “cantinhos” e menos espaço no meio.

Nosso papel na hora de brincar é fundamental e é disso que fala o tempojunto. Mas quais são nossos diferentes papéis ao brincar com os filhos? A Tânia comenta sobre nossa participação ativa, como observarmos o brincar dos filhos, as principais dificuldades que temos e ainda explica o que é a brincadeira estriônica e a brincadeira em segunda potência. É uma aula para todos que têm estas dúvidas sobre como agir na hora de brincar com os filhos. Deixamos a criança ganhar? Há um fator que compensa esta diferença de habilidades. Veja o que recomenda a especialista, tanto para pais, quanto para professores para deixar a brincadeira mais inclusiva. É um trecho um pouco mais longo, mas muito rico!

Outro toque importante: guarde sua ansiedade de achar que as crianças, incluindo os bebês, irão se cansar de um brinquedo. Ela precisa de tempo para explorar, testar, usar, ficar bravo e fazer as pazes com um objeto de brincar. Eu frizo muito isso porque fui assim quando o Pocoyo era um bebê. Eu não deixava o coitado ficar muito tempo com um brinquedo e logo oferecia outro. Parecia uma roda vida de tanta ansiedade de fazer todas as brincadeiras ao mesmo tempo, no período em que ele ficava acordado. Aprendi a ter calma, controlar e dar tempo de brincar. Funcionou muito melhor com a Cururuca e a Potcho. “Respeitar o ritmo das crianças é importantíssimo”, esclarece Tânia.

“Quando os pais esquecem deste fator e envolvem as crianças num trocar constante de atenção, oferecendo estímulos em demasia, sem se importar com o tempo delas, estão contribuindo para que os filhos desenvolvam dificuldades de concentração, dispersão, ansiedade e impaciência”, afirma Tânia.
Então, relaxem, respeitem o desenvolvimento do seu filho, independente das outras crianças em redor. Na escola isto se transforma, facilmente, em jogo didatizado: uma atividade dirigida, com aparência lúdica, é proposta como meio para “fisgar” o interesse do aluno no tema em questão.

Ora, “jogos utilizados para encobrir o ensino são tão autoritários quanto o ensino que pretendem criticar, com seu uso, pois o aluno/jogador é manipulado” (Fortuna, op. cit. p.156). Da mesma forma, com os chamados brinquedos educativos, acaba-se a brincadeira (Oliveira, 1984, p. 51), pois a intervenção adulta no brincar – talvez pelo sentimento de culpa gerado pela oferta de objetos considerados inúteis às crianças – imprimindo-lhe seriedade e conseqüência, asfixiam a liberdade quanto ao seu uso.

Mas enquanto alguns adultos percebem o apelo que as crianças fazem à sua participação no brincar e respondem-lhes dirigindo sua brincadeira ou ensinando a criticá- la, outros insistem em manter-se à parte, sob a alegação do respeito à liberdade que a atividade lúdica requer (Bujes, 2000, p. 223.). Não intervir na brincadeira pode, então, ser tão perverso quanto intervir demais. Então, nem tanto ao mar, nem tanto à terra,ok?

Ao terminar a entrevista, Tânia fez um pedido: Terminar esta entrevista enaltecendo a dimensão da relação que a brincadeira propicia entre pais e filhos, entre crianças e entre crianças e o mundo. Brincadeira é vínculo. Ouça nas próprias palavras da especialista.

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    'Por que brincar é importante' na opinião de 7 especialistas

    […] “Um brinquedo, uma brincadeira, um jogo, é tanto melhor quanto mais engendra mistério e oportuniza a ação (física ou mental). Assim, as condições em que é possível brincar são aquelas em que o indivíduo que brinca é sujeito da brincadeira, e não mero espectador, passivo, como também é provocado, desafiado”, explica Tânia ao iniciar nossa entrevista. Em outras palavras, brinquedo é tudo aquilo que provoca a ação e interação da criança. A rigor, nenhum brinquedo ou jogo pode ter este nome sem ação de quem brinca, ou seja sem a brincadeira acontecer efetivamente." Leia a entrevista completa aqui. […]

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