Importância do Brincar: o papel da brincadeira na inclusão de crianças com deficiência


Este é um texto que não deveria ter sido escrito. (Bom, Patcamargo, então prá quê você escreveu? Calma. Me acompanhe). O Brasil é um país com 7,3% das crianças com deficiência, segundo o Censo de 2010 do IBGE*. E o aproximadamente 8% da população mundial possui olhos azuis. Qual a diferença destas duas informações? Uma é mais trágica, poderíamos dizer. Só que não.

Ao menos do ponto de vista de sociabilização, interação, convívio e acesso não deveria haver diferenciação, já que tanto um quanto o outro pode precisar de um apoio para facilitar seu acesso a determinada situação. Pessoas com olhos claros, por exemplo, se sentem mais confortáveis de óculos escuros num dia ensolarado. Mudar a forma como encaramos a deficiência é a chave para a inclusão de toda a qualquer criança, segundo Meire Cavalcante, mestra e doutoranda em Educação e Inclusão pela Unicamp (Campinas/SP) e bacharel em Comunicação Social pela Faculdade Cásper Líbero (São Paulo/SP). Sócia-diretora da So Ham (consultoria especializada em educação inclusiva), coordenadora do Fórum Nacional de Educação Inclusiva (região Sudeste) e fundadora do Portal Inclusão Já!

Eu conheci a Meire durante uma das conversas da série Diálogos do Brincar, promovido pelo Instituto Alana, quando ela falou sobre o “Brincar na Diferença”. O vídeo completo está no final deste texto. O que me chamou a atenção neste papo foi a assertividade dela ao dizer que as diferenças estão em todos nós e que nenhuma pessoa pode ser vista por um aspecto da sua vida. “A deficiência não é algo a ser combatido, derrotado ou eliminado. A deficiência, qualquer que seja, é apenas uma das múltiplas e infinitas características que constituem um ser humano. E a existência de uma pessoa não pode ser desqualificada, deslegitimada em razão da deficiência”, afirma a especialista. Foi quando eu ouvi este trecho que destaquei em negrito que resolvi convidá-la para conversar conosco no Tempojunto.

Meire-Cavalcante-Divulgação

“Estamos passando por um processo profundo de transformação de conceitos e práticas. E a compreensão da mudança do conceito de deficiência é o ponto-chave”, explica. E para isso é preciso compreender o conceito de diferença. A diferença está em todos nós. É uma característica intrínseca do ser humano. E está em constante mudança e movimento. Podemos nos tornar diferentes por causa de um livro, um incidente, a chegada de um filho, por exemplo. E certamente você já deve ter visto como uma mesa experiência, um mesmo acontecimento (a morte, por exemplo) provoca mudanças diferentes em cada pessoa. Por isso é irreal definir uma pessoa apenas por um aspecto da sua existência; apenas por uma diferença.

Como também torna-se insuficiente frente à complexidade do ser humano pensar que uma deficiência iguala todos os que a têm. Em outras palavras: se uma criança é cega, ela não é igual a todas as outras crianças cegas só pela sua diferença.

Aqui no Tempojunto a gente concorda plenamente com isso. Inclusive, eu já escrevi sobre a brincadeira como a melhor forma de inclusão aqui no blog, conversando também com outras duas especialistas que trabalham, na prática com crianças com deficiência. Se você se interessa pelo assunto, vale à pena a leitura. Lá também há outras referências de textos e livros que ajudam a mudar nossa chave de pensamento.

E quando a brincadeira entra neste contexto? Confesso que no início do meu trabalho no Tempojunto, eu tinha prá mim que brincadeira é brincadeira e ponto. E como existem uma centena de brincadeiras por aí, certamente há brincadeiras para qualquer turma de amigos. Mas ficava aquela “pulga atrás da orelha”, de quem não é especialista em desenvolvimento infantil. “Será que não temos que escrever aqui no blog sobre brincadeiras para crianças com deficiência?” ou “Será que não valeria ter alguém de uma instituição que apoie crianças com deficiência para olhar as brincadeiras que postamos e sugerir modificações que as tornassem mais inclusivas?”. Fomos buscar ajuda neste sentido.

O que a Meire nos trouxe, aliás ela e outros profissionais envolvidos com a questão da criança, a deficiência e o brincar, é que minha primeira premissa estava no caminho mais correto. O brincar, a brincadeira e os brinquedos não enxergam deficiências. Eles podem, aí sim, ser pensados na questão de serem mais ou menos acessíveis para aquele grupo de crianças, naquele momento. E mesmo assim, não dá para padronizar. “O ideal é deixar que o próprio grupo identifique as condições específicas para que todos brinquem juntos. E que muitas vezes, ao serem estimuladas, as próprias crianças encontram as soluções mais legais que qualquer um de nós não pensaria na hora de planejar uma atividade determinada pela deficiência”, diz Meire.

Então, se você chegou até aqui, já deve ter compreendido que a brincadeira é a atividade mais inclusiva que você pode oferecer para seu filho, seja ela uma criança com deficiência ou não. E que brincar, as brincadeiras e os brinquedos não precisam ser especiais ou diferentes por isso. Daí que eu falei que este post não precisaria ser escrito. Mas a mudança do paradigma de olhar uma criança com deficiência conforme a Meire coloca não acontece do dia para noite e no meio deste caminho nós pais, família, professores temos muitas dúvidas. “Mesmo que seja óbvio que eu disse, quando a gente parte para a realidade concreta, estes conceitos se esvaziam e, em geral, volta-se a ter a necessidade de ‘receitas’, ou especificação em relação a algo que se faça com a deficiência, o que muito provavelmente é o que limita nossa capacidade de criação, de imaginação, interação e de resolução de problemas, já que voltamos a imaginar que é a deficiência que vai estabelecer de primeira a necessidade da criança”, afirmou Meire na série Diálogos. Por isso te convido a acompanhar um pouco mais este texto e a entrevista.

Questões práticas

Bom, então, a gente não precisa se preocupar, nem planejar nada quando há crianças com deficiência num grupo, no que se refere à brincadeira? Foi minha pergunta. “Se preocupar não”, responde Meire. “Mas ter um olhar atento e propor a construção de soluções conjuntas quando o grupo se ver frente a uma falta de acesso das crianças para aquela determinada brincadeira”, explica. Conforme o grupo de amigos passar a ter autonomia de decisões do que fazer a cada situação, tonar-se-á natural a busca de alternativas, sem que isto se transforme em um problema ou na exclusão. Veja os exemplos que ela dá:

A receita no final é perguntar para a pessoa o que ela precisa e não supor antes. O que significa também aprender a ouvir e compreender a criança, mesmo pequena, em suas outras infinitas formas de comunicação, mesmo sem ser a oralidade ou a escrita. “A diferença não é o que aprisiona a criança em uma definição fixa, que não considera suas outras características, preferências e necessidades e que a impediria de estar ou fazer o que quiser”. Vamos então?

Se você tem em seu convívio uma criança com deficiência, a “dica” de Meire é primeiro observar e compreender a criança e sua turma. E mais importante do que tentar antecipar é lidar com o imponderável que acontece. Mas dá para se prepara antes para saber conduzir a situação. A Unicef, em parceria com a Vila Sésamo, criaram, por exemplo, o Guia Incluir Brincando (gratuito neste link) , que ajuda neste processo. Há em sites de ONGs que trabalham com a inclusão e nas instituições de apoio várias indicações de leitura, muitas delas gratuitas e acessíveis a todos.

No final da nossa conversa, Meire abordou um tema que eu sei que “pega” também aqui no Tempojunto em duas frentes: a relação da escola e dos pais das crianças com deficiência.
As políticas públicas de educação inclusiva da última década foram efetivas e decisivas para garantir o acesso, a permanência e o aprendizado das pessoas com deficiência na escola comum. Em 2003, 71% das 504 mil matrículas de pessoas com deficiência eram em escolas ou classes especiais. Isso significa que tínhamos sistemas de ensino majoritariamente segregadores até então. Em 2014, o número de matrículas saltou para 886,8 mil, sendo que dessas 79% são matrículas inclusivas. Na rede pública de ensino, os dados são ainda maiores: Hoje, 93% das pessoas com deficiência matriculadas em escolas públicas estão em salas comuns (Censo Escolar/INEP/MEC).

Meire explica que em sua opinião as reuniões entre escolas e pais poderiam ter uma dinâmica diferente da maioria atual. Mais do que falar do desempenho de cada aluno, seria interessante que os pais vivenciassem as atividades propostas por meio das brincadeiras. Inclusive para crianças de ensino fundamental. “Há um susto dos pais quando eles ficam sabendo que as crianças brincam na escola”, ela conta. Que tal, ein? Brincar na reunião de pais?

Diálogos do Brincar – A Brincadeira e a Diferença, com Meire Cavalcante

* Cartilha Censo 2010 pessoas com deficiência

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