Música para criança não precisa ser boboca


Quando eu escrevi o título deste post, fiquei imaginando se seria mal interpretada, ou se as pessoas se espantariam com o termo boboca. Mas é isso que dá impressão às vezes quando vejo alguns trabalhos musicais. Ou porque tem coisas “infantilizadas” ou porque, tomando a afirmação do escritor Ilan Brenman, “tratam as crianças como se não tivessem inteligência”. Então, sim, digo que música para criança não precisa ser boboca.

Para que esta constatação não ficasse só no achismo, o Tempojunto foi entrevistar o premiado compositor, músico, pianista e arranjador André Mehmari. Além de trabalhar com música popular brasileira e de câmara, ele foi o responsável pelos arranjos e direção musical de dois trabalhos feitos para o selo MCD (série MPBaby), que tem o objetivo de trazer a música “de adultos” para bebês de 0 a 3 anos. No caso de André, ele trabalhou com Beatles e Clube da Esquina (movimento criado nos anos 70, que tem como figura central Milton Nascimento).

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“A série é muito bacana porque com as temáticas* podemos trazer excelentes músicas de vários gêneros para a criança”, conta André. “Eu tenho uma visão da infância que não é cute-cute, mas a infância é a parte mais importante da formação da pessoa e é uma etapa da vida que não tem nada de simples. Não tem nada do infantilismo reducionista que é pregado por vezes no mercado. Que a criança não entende nada, não sente nada. Ao contrário, por não ter os filtros da sociedade, eu acho que elas sentem mais”, deixa claro o artista.

Para a produção do primeiro trabalho, André trabalhou os arranjos com uma delicadeza sonora, mas ao mesmo tempo, com densidade e profundidade. Ele não queria arranjar as canções para que se parecessem todas como melodia de “caixinha de música”, o que seria, em sua opinião, subestimar a capacidade de absorção de beleza e de arte de uma criança. “Eu lembro de ter tido uma infância rica em termos de sensações, o que foi muito importante para meu desenvolvimento musical”, conta.

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De Tom Jobim a Pink Floyd

O segundo trabalho, MPBaby Clube da Esquina, foi uma derivação natural do primeiro disco (já que o grupo de John, Paul, Ringo e George era referência para os músicos mineiros), além do próprio Milton Nascimento ser um compositor que trabalha muito com crianças e o lúdico em suas próprias composições.

Do ponto de vista técnico, uma música “pensada para criança”, como as cantigas de roda, por exemplo, têm algumas características, como a presença de notas repetidas. São melodias diatônicas (usadas geralmente no ocidente), sem muitos saltos. Existe também a tendência de ser em tom maior e com pouca complexidade. Entretanto, da mesma forma que outras músicas seguem este padrão, músicas mais complexas (como os clássicos) podem ser apreciadas pelas crianças.

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André tem para si que o ser humano já nasce, de alguma forma, com uma capacidade importante de sentir e compreender uma música, mesmo que não seja como o adulto.

“A criança pode gostar de vários tipos de música e isso depende do ambiente que ela tem em casa e do que é proporcionado a ela. Tenho amigos com filhos na faixa de 3 anos que cantam Tom Jobim, um compositor de alta complexidade e poderia ser considerado difícil para a criança”.

Aliás, o retorno que o compositor teve especialmente do MPBaby Beatles foi justamente sobre o benefício para a relação entre os pais e os filhos. “Muitos vêm me dizer que ninam os filhos com as músicas, mas principalmente que fortaleceram o vínculo ao apresentar ao filho uma música que ele próprio gosta enquanto adulto”, exemplifica.

Por não deixar a criança morrer dentro de si, André mantém trabalhos de certa forma relacionados ao universo infantil. Engenho Novo, junto com a soprano Marília Vargas, por exemplo, traz para o clássico cantigas infantis brasileiras. No futuro há o projeto de uma nova gravação incluindo cantigas de outros países.

* A série MPBaby tem outros títulos com Chico Buarque, U2, Elvis Presley, Moda de Viola, Michel Jackson, Caetano Veloso, Forró e Pink Floyd. Quer escutar? Agora temos uma playlist no Spotify? Pois é. É gratuito. O MPBaby está lá. Músicas que a gente curte com os nossos filhos. Quem sabe você não curte?

 

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