Livro brincante: as mil transformações de Ieda de Oliveira


Conversar com a premiada escritora de livros infantis Ieda de Oliveira é como andar numa montanha-russa de ideias. Talvez por ser pós-doutora em Análise do Discurso (Université Paris XIII), doutora em Letras pela USP, mestre em Letras pela PUC/RJ, Especialista em Literatura Infantil e Juvenil pela UFRJ, ela sempre tenha muito o que contar. E é isso que ela faz nos seu livros infantis e também naquelas obras dirigidas aos adultos, como a série O que é qualidade em literatura Infantil e Juvenil, voltada para educadores.

Mas a nossa seção aqui é de livros brincantes. Então, a gente começa com uma palavra que nos leva ao faz de conta: “rhaimischimbilim”. Este é o título do primeiro livro da autora, em 2005. A palavra foi criada por ela quando tinha 6 anos e servia de ponte para se transformar em pássaro, bailarina, cantora e o que mais ela quisesse.

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Olha só o que ela conta sobre ser autora: “Escrever para mim é uma delícia! Seja para contar histórias em prosa ou verso, o que gosto mesmo é de inovar! Fazer tudo de um modo diferente, de um jeito que ninguém nunca fez. Essa mistura entre poesia e conversa torna o nosso paladar literário diferente. Imagine um chef de cozinha: se ele quiser ter qualidade, não pode apenas fazer as receitas que já existem, tem de criar novas receitas, não é assim? Então, com o escritor é igual. Ele tem sempre que inventar um jeito novo de dizer as coisas para tornar a literatura mais ampla, instigante e saborosa.” Não é o máximo?

Ieda tem plena certeza da importância da brincadeira para o desenvolvimento infantil: “Estimular brincadeiras é formar um cidadão bacana, que crie um mundo melhor realmente. Uma sociedade mais sadia. E esta oportunidade é na infância”.

Mil faces do espelho

Um exemplo de livro brincante da autora é “O Espelho”. Nele, a menina Kel brinca num terreno baldio, onde encontra vários objetos e dá a eles novos significados. Daí vem a sugestão de brincadeira que podemos fazer com as crianças. Vamos descobrir para que isto serve?

A ideia é pegar vários objetos que as crianças não conheçam. Pode ser algo como um espremedor de alho ou ralador de queijo. E quem sabe pegar alguma coisa bem antiga, que já não se usa mais e ficou largado no fundo da gaveta, como um disco de vinil, uma fita cassete, ou aquele pequeno objeto (que eu não sei o nome) parecido com uma lunetinha que olhávamos mini-fotos. Apresente todos às crianças e o desafio é primeiro descobrir para que serve. Em seguida, inventar uma utilidade ou significado novo para cada objeto.

Outra coisa que podemos fazer a partir da leitura de “O Espelho” é justamente brincar com ele. Que tal fazer caretas divertidas no espelho? Ou então brincar de reflexo de luz na parede (tomando o cuidado de não refletir nos olhos)?

“O livro O espelho tem um sentido muito importante e profundo para mim”, conta a autora. Ela foi uma criança que brincava como a Kel. Buscando lenços, folhas, fios, retalhos e produzia meus brinquedos e criava as brincadeiras. “Eu transformava, criava, fazia cerimônias de casamentos de bonecas, enterro quando o passarinho morreu. Tudo para mim tinha muito significado.”

E mais ainda. Ieda de Oliveira teve um acidente na infância que provocou queimaduras em seu rosto. “Além da perte fisicamente dolorosa que se curou, as marcas internas ficaram. E estabeleci este diálogo com o espelho para encontrar a beleza na imagem que via refletida”, explica. O livro também foi a forma como a autora expressou o preconceito racial sentido quando pequena, por ter pai negro e a mãe branca “era tratada diferente quando saia para passear com um ou com outro”. Daí que O Espelho ter tanto significado. “O brincar com o espelho e se permitir ver também o feio que o espelho reflete é importante também para a transformação”.

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Os bastidores da criação do livro revelam a forma como Ieda, ainda criança, lidou com o que aconteceu, transformando o diferente em belo. “Toda transformação pode ser menos dolorosa se tratarmos com ludicidade. Não olhar com fatalismo, mas com alegria. Não tomar um momento ruim, que é provisório, em permanente”. Brincadeira é mesmo coisa séria.

O livro também, na opinião da autora, pode ajudar à crianças a perceber que a estética não precisa ser o fundamental na vida. “Ao abrir uma porta para a criança, ela nos devolve mil portas. E o espelho pode ser uma porta para vermos diferentes imagens refletidas e brincar com isso é muito legal”, afirma.

Cozinha brincante

No próximo dia 19, Ieda lança mais uma obra que tem tudo a ver com Tempojunto. Com uma proposta inovadora de interação, ‘Folclore em versos: Delícias do Brasil’, da editora Zit, é o resultado de um riquíssimo encontro entre a arte literária e a arte culinária.

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Por meio da poesia, ela apresenta comidas de Norte a Sul do Brasil e faz uma interface criativa com receitas, dicas de como fazer uma hortinha caseira, um bate-papo sobre a qualidade dos alimentos, entre outras coisas. Ieda oferece uma literatura lúdica, a fim de estimular a garotada a colocar a mão na massa. E preparar os alimentos, ninguém tem dúvidas, é um gesto de muito carinho. Se você já leu a nossa coluna Tempojunto na Cozinha sabe que este momento pode ser riquíssimo na criação de vínculo e de diversão!

“Era uma criança que brincava muito de fazer comidinha. Eu queria ir além do texto e trazer algo mais material, mais lúdico para a criança. Por isso, no livro há 4 receitas (curau, bijú, paçoca e a “receita da vovó jandira” de biscoito de coco) para as crianças trabalharem junto com o adulto e transformarem o alimento brincando.

Acho que este livro pode ser uma diversão em vários aspectos. NHhammy!

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