Importância do Brincar: Como a brincadeira ajuda a ouvir nossos filhos. Entrevista com Inês de Castro


Eu realmente tenho uma paixão nas conversas aqui do Tempojunto com especialistas em infância. Porque cada papo destes é mais um aspecto da brincadeira que eu conheço. Ouvir nossos filhos é um deles.

Desta vez, o papo foi com a jornalista, colunista da Rádio BandNews FM e escritora, Inês de Castro. Desde sua maternidade, a Inês já se viu às voltas com as mudanças de ser mãe: foi demitida da redação onde trabalhava. Este foi o primeiro passo em direção ao universo da infância e da educação dos filhos, com o qual se envolveu.

Durante 7 anos, ela esteve à frente do quadro “Seus Filhos” da rádio, juntamente com a psicóloga Rosely Sayão. Nestas conversas, reportagens e pesquisas, ouvindo as dúvidas dos pais diariamente, Inês adquiriu “traquejo no assunto. Uma experiência que ela comparte em palestras, como a que eu acompanhei, e que deu origem a este post. O tema da palestra foi “Precisamos ouvir nossos filhos”. É eu também acho.

Brincar é a ferramenta para ouvir as crianças

Como a gente sempre defendeu e defende aqui no Tempojunto, brincar é a melhor forma de percebermos nossos filhos. De os compreendermos e ouvir o que eles querem nos dizer. Especialmente na primeira infância, o período que vai do nascimento aos 6 anos.

Claro então, que o interesse na palestra da Inês de Castro e depois, no que ela teria a dizer sobre o brincar era total.

De cara, Inês avisou que todos nós queremos soluções práticas para a vida e a relação com os filhos. “Mas estas soluções não existem. Porque as coisas mudam muito”, afirmou.

Isto posto, o primeiro grande choque da conversa: na hora de ouvir nossos filhos, nós pais, só sabemos falar, falar, falar, falar, falar (pois é. Fiz questão deste exagero de “falar”. A Inês foi mais sutil rsrsrs).

Mas, para nossa defesa, este falar tem um motivo. “Estamos cercados por muita informação que acaba, elevando as coisas a uma potência muito grande. Acaba que tudo vira um drama”, explica a escritora. Ela também contou sobre sua percepção que nós pais fazemos muito relatório. Ou seja, na hora do diálogo só nós queremos falar, esclarecer, explicar as coisas para nossos filhos, como um interminável relatório profissional. “E no pouco tempo que temos, queremos fazer tudo, fazer 100%, não errar nunca e colocar todas as informações que recebemos em prática, ao mesmo tempo”, conclui.

Meu filho me conta as coisas

Não, esta frase não está errada. Sim, existem crianças que contam para a gente o que acontece na escola ou no dia. O filho da Inês foi assim. “O caminho que eu encontrei para alcançar meu filho era observar e fazer comentários sobre algo que eu via, como um “roxo” novo na perna ou uma coisa diferente no uniforme. E daí vinham as histórias.”

Este pode ser um caminho, não é verdade? Mas esta observação e conversa precisam vir genuinamente do nosso interesse em saber das novidades das crianças. Se houver uma agenda escondida, nossos filhos vão perceber. “A gente tende a ditar regras em lugar de conversar, porque achamos que temos as soluções prontas. E quando começamos a conversa com as regras, em pouco tempo, as crianças já deixaram de nos escutar”, afirma Inês.

Outro ponto importante na questão de ouvir os nossos filhos é o que Inês de Castro ponderou sobre as expectativas que colocamos sobre as crianças. Alguém na plateia argumentou que as crianças hoje em dia têm muito mais do que a geração dos pais. E por isso, deveriam ser menos estressadas. “Sim, nós tínhamos menos. Mas havia também menos cobranças. A vida hoje também não é fácil para crianças e jovens porque eles têm que lidar com a pressão de atender nossas expectativas”, disse a escritora.

Portas abertas para ouvir nossos filhos

Um canal aberto de conversa e relacionamento com nossos filhos é uma conquista que fazemos todos os dias. E para que isso aconteça, dia a dia precisamos falar menos, ouvir mais. Observar os detalhes deles e deixar que eles falem. Olhar menos as informações das redes sociais e mais aquelas da nossa vida. “E prestar atenção no entorno do seu filho, em lugar de inquerir. Porque é mais fácil a gente entender as crianças do que as crianças nos entenderem. Afinal, nós já fomos crianças, mas eles nunca foram adultos”, explicou Inês de Castro.

Atividades X filhos

A partir de um outro questionamento da plateia, sobre a quantidade ideal de atividades extras para as crianças, surgiu um tema que a gente aqui no Tempojunto também repete várias vezes: A falta de tempo que as crianças têm para brincar e serem elas mesmas.

“Estamos dando pouco tempo para as crianças não fazerem nada. Na vida deles realmente acontece muita coisa; são muitas experiências, mudanças e descobertas e é preciso tempo para digerir tudo isso. As passagens de fases da infância são períodos de muita complexidade que nós adultos não percebemos”, afirmou.

Na opinião da jornalista e escritora, há coisas mais importantes para o bom desenvolvimento das crianças, que muitos cursos, muitas atividades extras e muito conteúdo. É a saúde mental, emocional e psíquica dos nossos filhos. “Eu entendo a expectativa dos pais. A gente só quer simplesmente tudo para nossos bebês. Mas a gente precisa aprender a se frustrar”, argumenta.

E o momento é agora, na infância. Os ingredientes estão todos aí. É preciso afeto, atenção e escuta para que uma criança se sinta segura e mantenha as portas da comunicação e do relacionamento abertas. “Porque quando chegar à adolescência, o tempo de abrir portas terá passado”.

O papel da brincadeira

“É nosso papel sair do lugar de conforto do ‘no meu tempo era legal e diferente’ e tentar se colocar no lugar dos filhos e realmente entender como eles enxergam as questões”, esclarece Inês.

Então, entra minha pergunta sobre brincadeira. Afinal, brincando conseguimos ouvir nossos filhos?

Inês de Castro: A brincadeira é um canal mágico. É um canal mesmo de comunicação porque a criança entende se a gente ter que explicar muito. Brincando você ensina, passa valores, mostra quem você é. Você extrai da criança algo que é importante, o olhar que você precisa. E basicamente é um tempo que você passa com seu filho. Então, podendo, garanta este tempo.

Todos reclamam um pouco deste tempo. Dá para colocar este tempo de brincar no nosso dia a dia e o tempo para nosso filho não ser o último tempo, quando já estamos cansados?

Inês de Castro: Tempo é uma questão de prioridade. Você coloca nele o que você quiser. É uma pergunta que temos que fazer, qual o lugar que nosso filho ocupa na nossa vida. O que estou priorizando no lugar dele. A partir do momento que temos filhos, temos uma responsabilidade com eles que não se discute.

Brincar é…

Os pais estão dando importância para o brincar? E os adultos estão se permitindo ter uma vida mais brincante?

Inês de Castro: Acho que estamos despertando para isso. Ainda é preciso caminhar, mas estamos prestando atenção neste assunto. O que pode ser um primeiro passo para colocar o brincar na nossa vida. Até porque não precisa ser o tempo todo ou muitas horas do dia. Dentro da possibilidade de cada um, um pouquinho todo dia, sem se forçar, porque a criança também percebe quando você está brincando de má vontade.

Brinca no espontâneo, brinca no genuíno. Mas se permita, porque brincar é uma delícia.

E para Inês de Castro, brincar é…

Inês de Castro: Brincar é aquele espaço da sua vida que você se permite resgatar e mostrar o que você tem de mais genuíno dentro de você.

Eu amei demais a palestra e o papo. Aliás, sou pessoalmente grata à Inês porque o livro dela “Mamãe vai trabalhar e volta já” me deu tranquilidade para escolher o caminho que escolhi entre maternidade e profissão, que me trouxe ao Tempojunto.

Sempre temos aqui no Tempojunto um entrevistado que aborda mais um aspecto da importância do brincar para nossos filhos. Para não perder estes papos incríveis, faça parte da nossa Newsletter. Ela é semanal, gratuita e você fica atualizado com todos os conteúdos do Tempojunto.

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