Ruth Rocha e os livros como brincadeira universal para os filhos


Falamos com a Ruth Rocha. Eu não me importo nem um pouco em ser jornalista e tiete ao mesmo tempo dos meus entrevistados.

Há uma lista grande de gente com quem conversei ao longo dos anos e que me segurei para não pedir autógrafo no final. Alguns eu não resisti. Com a Ruth, só não pedi autógrafo porque estávamos à distância do telefone, por conta do afastamento social pela pandemia do Covid-19.

Mesmo assim, fiquei super feliz em conversar com uma das autoras infantis mais respeitadas do Brasil e cujo livro “Marcelo, Marmelo, Martelo” foi o primeiro livro que li sozinha (depois de ler muito gibi do Maurício de Sousa).

Porém, aqui é Tempojunto. E esta coluna se chama Leitura Brincante. Porque a gente acredita, comprova e pratica a leitura de livros como uma enorme brincadeira. E sempre trazemos este lado da leitura para nossas entrevistas: como o livro pode extrapolar as suas páginas e se tornar brincadeiras para as crianças.

Direitos, brincadeiras e muito papo

Neste papo, prestes a fazer 90 anos, Ruth conversou comigo sobre a importância da presença dos adultos no desenvolvimento da criança, como a conversa e a brincadeira na infância influenciaram em seu trabalho como escritora e o quanto ela sente ainda que os direitos básicos das crianças estão sendo negligenciados.

Acompanhe. E se preferir ouvir, a gravação da entrevista está no podcast do Tempojunto. É só clicar aqui.

Crédito Nagila Rodrigues – Ruth Rocha

Patcamargo: Eu queria começar perguntando para a senhora o seguinte, os livros podem ser brincantes? Como a literatura e a brincadeira se encontram?

Ruth Rocha: Ah, eu acho que assim, há muitos livros que são uma brincadeira em si. Porque eu acho que são coisas que divertem, são coisas que estimulam, são coisas que podem ser comparadas às brincadeiras.

Patcamargo: A senhora trabalhou durante muito tempo na Revista Recreio e com educação infantil. Quando eu vejo os livros da senhora, tem muito isso de ser divertido, da importância do ser divertido, para que a criança possa ler e gostar. É isso mesmo? Essa essência da diversão está dentro dos seus livros?

Ruth Rocha: Eu acho que sim. Sabe o que acontece, o escritor não escreve o que ele quer. Ele escreve o que ele é. Eu, por exemplo, sou uma pessoa bem-humorada, eu sou alegre, então, tudo o que eu escrevo tem uma ponta de graça. Eu acho que quase tudo o que eu escrevo é engraçado. Eu acho que é do meu temperamento e é da minha formação. Porque minha casa sempre foi muito alegre, meus pais eram muito amigos e a gente brincava muito. Havia muitos amigos em casa.

Foi muito alegre a minha infância e eu acho que isso me ajudou. Outra coisa que me ajudou foi a minha leitura de (Monteiro) Lobato. Lobato é muito engraçado, muito irônico, muito movimentado, então eu acho que Lobato influenciou muito na minha formação.

Brincadeira e conversa na família de Ruth Rocha

Patcamargo: A senhora falou uma coisa interessante, que a senhora brincava muito

Ruth Rocha: Muito, muito, muito. Muito, o tempo todo. Eu tinha uma irmã mais velha e brincávamos muito. Nós somos muito amigas até hoje. Nós brincávamos muito e meus pais ajudavam muito a gente a brincar, sabe, davam espaço.

Nós tínhamos brinquedos, não eram exagerados, mas nós tínhamos alguns brinquedos. Brincávamos na rua. A gente jogava bola, a gente tinha turma de rua. Passeávamos e conversávamos.

Minha família inteira brinca muito, meus sobrinhos todos. Todo mundo brinca e os pais ajudam a promover e permitir este brincar.

Patcamargo: Vou trazer, então essa sua experiência pessoal com o brincar mais a sua experiência toda de orientação de pais. A senhora consegue perceber essa ligação entre o brincar e o desenvolvimento das crianças?

Ruth Rocha: Ah, mas sem dúvida. Hoje, inclusive todos os psicólogos sabem que a criança precisa brincar. O desenvolvimento da criança se dá pela brincadeira. A criança, brincando envolve a sua inteligência, sua percepção, desenvolve sua sociabilidade. Por isso, a brincadeira é o trabalho da criança. É muito importante brincar.

Patcamargo: Uma outra coisa que a senhora sempre fala e eu já vi isso em outras entrevistas é o quanto os seus pais conversavam com você. O quanto a sua família é uma família que conversa muito. Eu queria que a senhora justamente falasse sobre esse poder da linguagem na relação dos pais com os filhos.

Ruth Rocha: A conversa dos pais com os filhos é muito básica, muito formativa. Primeiro porque é pela conversa que a gente aprende a língua e é muito importante que os pais conversem, cantem para as crianças, que digam versos, porque é assim que as crianças ficam acostumadas com seu próprio idioma.

É importante que os pais corrijam as crianças, sem humilhar, sem chatear, sem chamar filho de bobo. Isso não se faz. Corrigir com simplicidade para que a criança vá aprendendo direito o idioma.

Conversar é importante, inclusive, para a alfabetização, porque para a alfabetização é importante que a criança fale bem, ouça bem.

Além disso, essa conversa com as crianças leva os pais a conhecerem seus filhos, a saberem o que eles gostam, saberem o que eles querem, perceberem suas incertezas, suas inseguranças. É importante em todos os sentidos conversar com criança.

O amor pelos livros

Patcamargo: Como incentivar a leitura aquela criança que por exemplo, olha para o livro e em lugar de ver o livro, olha o número de páginas antes de ler?

Ruth Rocha: Ah, isso não importa. Em minha opinião, a criança gostará de ler primeiro, quando conhece bem a sua língua; segundo, quando é alfabetizada; terceiro, quando vê os pais lendo; quarto, quando tem livros à disposição.

E quem não pode comprar livros, por favor, incentive o frequentar a biblioteca.

Patcamargo: Uma vez eu conversei com outro autor de livros e desenhista, o André Neves, e ele disse que mesmo que os pais não tenham o hábito de ler, se eles disponibilizarem os livros para as crianças, as crianças podem ganhar esse hábito de ler. O que a senhora acha?

Ruth Rocha: Concordo. A gente não sabe por que as pessoas adoram ler. Imaginamos que é porque é bem alfabetizado, que é porque sabem bem a língua, que é porque vê os pais lendo. Agora, se os pais não leem, eles disponibilizam, isso aumenta a chance de a criança ler, e se eles leem ainda aumenta mais. Não é?

Ruth Rocha e Ana Maria Machado trabalharam juntas na Revista Recreio

Patcamargo: Queria mudar um pouquinho de assunto. Sobre um outro livro que a senhora fez e que é muito importante, que é a versão Ruth Rocha dos Direitos das Crianças. A senhora acha que os direitos das crianças têm sido respeitados?

Ruth Rocha: Ah, não, mas nem um pouco. Nós temos problemas porque não tomam conta direito das crianças. Todos os problemas do mundo partem um pouco daí.

Eu acho que é falta de educação, falta de amor, falta de respeito, falta de confiança, falta de convívio, falta de valorização, tudo isso falta para a criança.

Os governos pouco se importam com a criança; criança não vota. Os governos não ligam. No Brasil é uma coisa horrorosa.

As coisas mais importantes do mundo para as crianças são saúde e educação. No entanto, tanto a educação como a saúde não são cuidadas como prioridade. Eu acho que isso é muito grave. É muito grave o descaso que os políticos têm em geral com a criança e mostram isso com o descaso que têm pela educação e pela saúde.

Almanaque do Marcelo e Livro dos Macacos

Quando fiz a entrevista, Ruth estava trabalhando seu mais recente lançamento, o Almanaque da Turma do Marcelo, um “spinoff” do seu mais famoso livro “Marcelo, Marmelo Martelo” (que, aliás, vai virar série de TV).

Patcamargo: Queria falar do trabalho com a sua filha, com a Mariana, o novo almanaque da turma do Marcelo, Marmelo e Martelo. Como é que foi trabalhar com a sua filha? De onde veio a ideia de fazer esse almanaque e de trabalhar junto com a Mariana?

Ruth Rocha: Fiz esse almanaque porque eu adoro almanaque, desde que eu era pequena eu ganhava o Almanaque “O Tico-Tico” no Natal e gostava muito. Eu tinha um primo que tinha uma coleção de livros, que chamava Tesouro da Juventude. Ela era formada por um almanaque, muitas curiosidades, uma porção de histórias, e eu adorava.

Então, eu fui trabalhar na Editora Abril, criando atividades e brincadeiras para as crianças dentro da revista Recreio. Mais tarde, acabei dirigindo uma redação que fazia só atividades para criança. Por conta disso, acabei juntando, muitas coisas curiosas, brincadeiras e variedades. Foi o que me deu a ideia de fazer um almanaque.

Comecei a precisar de ajuda nos contratos, organização do material e com ilustração. Trabalhar com ela é maravilhoso. Eu sou muito amiga da minha filha e nos damos muito bem para trabalhar. Nós temos as mesmas ideias sobre educação, sobre artes. E trabalhar com ela me deu muita alegria.

O almanaque é dividido em 12 capítulos, cada um para alguém da turma do Marcelo. O capítulo do Marcelo, que brinca muito com palavras. O capítulo do Catapimba (“O dono da bola”) sobre esportes e por aí vai.

Ruth, com a filha, Mariana

Patcamargo: Os almanaques são também formas de ensinar. Ensinar é chato?

Ruth Rocha: Não. Não, ensinar é ótimo. Tem gente que tem jeito para ensinar e tem gente que não tem. Quando a gente gosta de ensinar, o aluno gosta de aprender, então, quando o aluno gosta de aprender, ensinar é gostoso. Quando o professor ensina bem, é uma delícia aprender. Eu até hoje estou aprendendo. Eu vou fazer 90 anos em março (2 de março de 2021), mas eu até hoje estou aprendendo.

Marina Bastos pergunta para Ruth Rocha

No meio da nossa conversa, eu trouxe para a Ruth as perguntas que a contadora de histórias, Marina Bastos, fez, trazendo um pouco do mundo dos contadores para este papo.

Marina Bastos: Oi Rute Rocha, tudo bem? Admiro muito o seu trabalho e eu tenho vontade de escrever livros também, então eu queria te perguntar qual sugestão, qual dica que você dá para quem quer escrever o seu primeiro livro?

Ruth Rocha: Qualquer escritor tem que ter uma coisa: tem que ler. Depois tem que ler mais. Depois tem que ler tudo o que puder. Enquanto você não tiver uma bagagem de leitura muito extensa, você não consegue escrever.

Marina Bastos: O que você acha de ver contadoras de histórias contando as suas histórias em vídeos ou eventos. Você gosta de ver as suas histórias contadas de outras maneiras ou prefere que elas fiquem só no objeto livro? Exatamente com as mesmas palavras que estão escritas lá?

A contadora Marina Bastos

Ruth Rocha: Eu gosto da minha história. Se modificar a minha história, eu não gosto tanto. Agora é um direito do contador fazer o que ele quiser, mas eu prefiro que conte a minha história.

Brincar é…

Como em todas as entrevistas que você vai ler aqui no Tempojunto, nossa última pergunta é sempre completar a frase “Brincar é…”

Para Ruth Rocha: Tudo.

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