Por que brincar é importante?


Você acredita na importância do brincar? Se sim, ótimo, você é como nós aqui do Tempojunto. Mas você sabe por que brincar é importante?  Muitas pessoas ainda  desconhecem os benefícios do brincar para os pequenos, especialmente na primeiríssima infância, que vai do 0 aos 3 anos. Por isso, uma vez por mês vamos dar uma pequena pausa na divulgação das brincadeiras para trazer especialistas para falar sobre a importância no brincar.

Nossa primeira entrevistada foi a psicóloga Patricia Garcia, que nos contou que, com a brincadeira, os pais têm em mãos uma chave preciosa para conhecer ainda melhor os filhos e ajudá-los no seu desenvolvimento. Hoje, nosso texto foi resultado de um ótimo para papo com o psicólogo e professor da Universidade de São Paulo (USP) Lino de Macedo*. Para ele, o bebê não apenas tem capacidade de brincar desde recém nascido, como deve ser estimulado a brincar porque desde este momento já está aprendendo a socializar-se e a entender os sinais da vida.

Com a experiência de quem é especialista em desenvolvimento infantil e pesquisador da educação Piaget, ele também afirma que a participação dos pais neste processo é fundamental.

Até o primeiro ano (chamada pelos especialistas de primeiríssima idade), o bebê identifica a brincadeira e o “estado lúdico” de quem está com ele. Isso significa que se você brinca sorrindo, por exemplo, ele compreende que alguma coisa que é legal para ele, também o é para o adulto. Desta forma, há a satisfação e o fortalecimento do vínculo afetivo.

A brincadeira com o bebê não precisa se restringir a alguns períodos do dia. Lino explica que momentos do cotidiano de cuidados com a criança podem ser convertidos em tempo junto lúdico. “O banho e o momento da refeição são propícios para serem brincantes”, afirma.

A gente sabe bem disso. Se estamos de bom humor, e brincamos nestes momentos, o “trabalho” é bem mais leve, não? “Algo que passa despercebido aos pais é que brincando o adulto descança, já que o trato do dia a dia do bebê é cansativo”, explica o especialista.

Os sentidos têm mão dupla

“Durante o primeiro ano de vida, a criança tem a necessidade de desenvolver suas habilidades sensoriais e motoras. Ela quer olhar, ouvir, ver, cheirar, lamber, tocar”, explica. “E, ao mesmo tempo, ela quer o oposto, ou seja, quer ser olhada, que falem com ela, quer ser tocada, abraçada. Quer ser ouvida.” E mais, os órgãos sensoriais são uma via de mão dupla. Ele vai da criança para o adulto e vice-versa. Ou seja, ela copia e quer se expressar como o adulto. Dessa forma, vai, aos poucos adquirindo a capacidade de fazer movimentos mais complexos e se desenvolvendo. Se ninguém brinca com ela, não há o que ser copiado e, portanto, a criança fica desmotivada para evoluir.

Por fim, Macedo esclarece que é importante dar à brincadeira um peso equivalente ao da nutrição e da higiene. Em outras palavras, brincar é tão valioso para o desenvolvimento saudável do bebê quanto comer ou tomar banho.

Até os 3 anos brincar é fazer de conta

A partir dos 2 anos, a brincadeira principal das crianças é o faz-de-conta. É uma fase interessante porque a criança imita o que vê dos adultos e repete quando brinca. Nesse período, os exemplos dos adultos e aquilo que a criança entende disso são reproduzidos e podem ser observados na brincadeira.

Lino reflete que a televisão e certos aplicativos podem ser traiçoeiros, pois apesar de passar a impressão que a criança está em contato com o mundo adulto, é uma inverdade, pois os personagens da TV não são a realidade da criança.

Quando os pais “resolvem” o brincar da criança até 3 anos somente com TV e outros eletrônicos, corre-se o risco de qualquer outro adulto que brinca com a criança (professor, babá, etc) acabar conhecendo-a melhor e sendo um modelo mais freqüente de imitação.

Não precisa ser palhaço

Lino defende que a atitude lúdica precisa estar presente na forma como o adulto lida com a criança no dia a dia. Isso não significa ser “um palhaço” o tempo todo. Mas ter, por exemplo, uma atitude brincante na hora de ler para dormir (não sendo automático, sério, sem graça), ou da higiene ou das refeições, ou até do ir e vir (de carro, à pé ou no transporte público).

Entre 2 e 4 anos, a criança tem uma disponibilidade maior social para o brincar junto. Por outro lado, é justamente nesta fase que o adulto se afasta do tempojunto da brincadeira porque acha que a criança já se vira sozinha. Isto é um paradoxo, porque estamos falando da fase da vida em que as crianças estão mais aptas e disponíveis à socialização, passando um tempo junto com o outro. Se os adultos a afastam e não passam mais o tempo de brincar com elas, perdem a chance de interagir e conhecer as crianças nesses momentos.

“É importante que exista o tempo do brincar sozinho e o tempo de brincar com o adulto”, afirma Macedo.

“Sei que às vezes é complicado e pode ser pedir muito, mas em minha opinião, quanto mais a criança ‘da trabalho’ mais ela precisa de um adulto lúdico, leve, que abraça perto dela”.

Tempojunto sempre

Segundo a experiência do professor, infelizmente a criança mais velha, a partir dos 7 ou 8 anos, acaba não tendo mais a companhia do adulto para brincar. A máquina (a televisão, o computador, o celular) o substitui na relação lúdica com a criança. “Filho não é só responsabilidade, é também prazer no sentido lúdico”.

Para Lino, isto também é conseqüência da falta de repertório de brincadeiras dos adultos em geral.

Você pode se perguntar: qual a importância de brincar junto na idade de 7 anos em diante? Especiamente se você já esteve com a criança no primeiro ano, estimulando, e depois a acompanhou durante toda a fase de socialização e faz de conta.

Ah! Outra coisa legal de citar. “Brincar com o filho não tira autoridade dos pais nos momentos de seriedade e educação.” Palavra do especialista.

Além disso, ao brincar com a criança mais velha, o adulto a empodera para lidar com situações da vida, como a vitória ou derrota (no caso de um jogo), a superação, a persistência (até ganhar do adulto) e a celebração generosa (aquela que não humilha quem não conseguiu o resultado).

Quando o adulto mantém o tempo junto de brincar com a criança mais velha ele já está sedimentando o caminho para que o adolescente tenha prazer da companhia dos pais e dos adultos, além da companhia dos amigos. (Olha aí uma dica daquela receita que todos nós queremos sobre o adolescente). Bóra brincar com as crianças e ajudar a fazer as outras pessoas se conscientizarem de que #brincadeiraecoisaseria

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*É graduado (1966) em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de São José do Rio Preto, mestre (1970), doutor (1973) e livre docente (1983) em Psicologia pela Universidade de São Paulo. É professor e orientador no Programa de Pós- graduação em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano, neste instituto, tendo orientado 70 teses de doutorado e dissertações de mestrado. Sua linha de pesquisa é sobre o valor dos jogos na Psicologia e Educação como recurso de observação e promoção de processos de aprendizagem e desenvolvimento, na visão de Piaget. Atualmente, é integrante do Instituto de Pesquisa do Hospital Infantil Sabará – Pensi.

3 Comments

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  1. 1
    Isabella Mesquita (@IsabellaMRSac)

    Oi Patrícia, parabéns pelo blog, pela iniciativa e pela qualidade dos seus artigos. Esse, em especial, me chamou a atenção, por se tratar de uma preocupação que tenho como mãe há algum tempo. Tenho um menino de 4 anos que adora brincar e brincar comigo! :) Depois que passei a trabalhar em casa, posso acompanhar o pequeno de perto e dar a ele a atenção que merece. Está sendo muito legal!!!
    Tenho (juntamente com meu marido) um canal no Youtube chamado Capitão Soninho, de clipes musicais infantis, e já abordamos essa questão da importância do brincar num vídeo chamado “Vamos Aproveitar”. Dá uma olhadinha lá e veja o que acha! O link é: https://www.youtube.com/watch?v=uFJVe3jKFDA
    Beijos e sucesso!
    Isabella

    • 2
      Patrícia Marinho

      Oi Isabella,

      Obrigada pelo elogio e pelo comentário. Adorei o seu canal e o vídeo é bem bacana. Parabéns, para você e seu marido, pela iniciativa. Bjs

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